
Cores Primárias - Na mostra Vieira da Silva no Brasil, o senhor procura criar um ambiente favorável à percepção da obra da artista portuguesa com vários recursos museográficos. Como isso se deu e em que medida esses recursos aproximam o observador dos trabalhos de Vieira da Silva?
Nelson Aguilar - Convidei Hélio Eichbauer para criar a museografia da mostra. Trabalhou com Martim Gonçalves, desenhista, cenógrafo, diretor de teatro, um dos grandes amigos de Vieira da Silva, co-responsável pela exibição Bahia, evento da 4ª Bienal de São Paulo (1959), juntamente com Lina Bo Bardi, que se localizou sob a marquise do Parque Ibirapuera, justamente onde está localizado o museu hoje. Hélio conheceu Maria Helena e Arpad (o marido, também pintor, da artista) e soube tirar o melhor partido do espaço. Dessa maneira, a exposição reúne o ancestral Martim, que estudou cenografia em Oxford e ajudou a formular o espaço do MAM, e Hélio, que trabalhou com o grande mestre das artes cênicas, o checo Josef Svoboda. Sabiamente, há o afastamento de qualquer recurso teatral no espaço, apenas o reconhecimento de suas potencialidades.
Cores Primárias - Carlos Scliar declarou certa oportunidade* que Vieira da Silva teria sido responsável pela sua ida à Paris. Em 1947, quando a artista já estava partindo do Brasil teria dito a Scliar: “para viver mal de pintura não seria melhor viver mal de pintura em Paris”? Com quais artistas Vieira mais se relacionou no Brasil, na área das artes visuais?
Nelson Aguilar - Carlos Scliar, Martim Gonçalves, o crítico de arte Rubem Navarra foram os jovens brasileiros com quem Maria Helena mais esteve ligada.
Cores Primárias - Por ocasião da mostra dos artistas portugueses em 2004 também no MAM de São Paulo, o crítico português Pedro Lapa afirmou que a obra de Maria Helena Vieira da Silva teria desempenhado um papel relevante para a prática modernista no Brasil. O senhor concordaria com ele?
Nelson Aguilar - Sem dúvida, sobretudo pelo exemplo de dedicação integral à arte. Mais tarde, já na Europa, o cearense Antonio Bandeira se apaixonou pela pintura de Maria Helena.
Cores Primárias- Em recente palestra na Unicamp o senhor afirmou que a obra La partie d´échecs, de 1943, hoje pertencente ao Museu Nacional de Arte Moderna do Centro George Pompidou, representou um sobrevôo da artista portuguesa no Brasil. Qual a importância desse fato?
Nelson Aguilar- A tela é modulada inteiramente pelas casas de um imenso tabuleiro de xadrez e no centro, dois jogadores se sobressaem desses módulos quase imperceptivelmente. Trata-se de uma completa tradução do figurativo para o abstrato ou vice-versa que um artista já fez. Isso permitiu Maria Helena “sobrevoar” as vicissitudes do meio cultural afeito à figuração modernista e continuar ela mesma
Cores Primárias- A atual mostra possui muitos quadros de coleções particulares, dentre as quais a da família Marinho e de Gilberto Chateaubriand. Há possibilidades da mostra ser levada posteriormente para o Rio de Janeiro, cidade em que a artista viveu durante a sua estada no Brasil?
Nelson Aguilar - Até agora, não há manifestação nesse sentido. Estou muito preocupado, pois em São Paulo Maria Helena é conhecida por ser detentora do grande prêmio da 6ª Bienal de São Paulo (1961). Note que Léger o recebeu na 3ª, Morandi na 4ª e Barbara Hepworth na 5ª. Essa láurea significa a consagração definitiva. As premiações de São Paulo e Veneza contavam na época imensamente para o circuito artístico internacional. No Rio, é diferente, pois a artista lá viveu quase sete anos. Houve outras mostras na antiga capital federal, mas nenhuma focalizando a maior obra que fez no país, o painel de azulejos da Universidade Rural Federal do Rio de Janeiro, situada em Seropédica, exibido aqui, por estar sendo restaurado em São Paulo. No Rio, haveria condições de exibi-lo inteiro, ao passo que em São Paulo só mostramos duas peças (são oito) em virtude da lentidão exigida pelo processo de restauração. O impressionante é o conjunto de desenhos, estudos preparatórios para chegar ao painel. O dia em que tudo isso for devolvido a Lisboa sem passar pelo Rio seria de luto na história da cultura e da arte brasileira.
Imagens - Divulgação
* Declaração gravada em documentário feito pela Caixa Econômica Federal do Rio Grande do Sul durante uma exposição do Grupo de Bagé, realizada em 1996. |