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O contato com a arte portuguesa foi
revelador. Vários nomes eram desconhecidos por mim, e creio
que o são para muitos aqui no Brasil.
Em Dezembro
conheci a Árvore, uma casa
centenária que
está às margens do
D’Ouro, ladeando o famoso Passeio
das Virtudes, situado “ sobre
um paredão
levantado em 1787
por ordem de
Rodrigo António de Abreu e Lima, juiz da
alfândega e inspetor da
Marinha do Douro. Na base
desse paredão está
uma fonte que deu
o nome a esse
passeio e
também uma das portas
do antigo recinto
amuralhado da cidade.”
Segundo nos
relata o filósofo Jacinto
Rodrigues no livro Arte,
Natureza e a Cidade, editado pela
Cooperativa de
Atividades Artísticas –
ÁRVORE.

O local é realmente encantador e lá
funciona um dos grandes núcleos de arte da cidade do Porto,
senão o mais importante deles. Contando com espaço de
exposição, livraria, loja, além de abrigar
oficinas de pintura, gravura e cerâmica, esta instituição
concentra um dos mais importantes acervos de arte da cidade.
Freqüentada pelos artistas associados,
poetas, escritores e intelectuais, a Árvore é sem
dúvida um centro de reflexão e convívio de onde
irradiam idéias e obras. Foi neste espaço que travei
contato com grandes artistas portugueses, tais como José
Rodrigues, Gustavo Bastos, José Emídio entre outros.
O desenho permanece como o fundamento
primordial da arte, sem o que tudo pode não passar de um
exercício técnico sem maiores implicações
estéticas. Neste ambiente repleto de obras a criação
se imiscui da fina modernidade, dos traços rápidos e do
gosto pelo adorno, pelo art noveaux.
Produzi algumas obras em
cerâmica, duas esculturas na
técnica do Raku e uma série
de doze pratos na
técnica do engobe. Meu
conhecimento anterior
com a
cerâmica era o
da terracota, que aprendi com
o escultor Ângelo
Taccari, mas isto não
impediu a confecção
das obras em
outras técnicas, porque tive
o prazer de ter a
assessoria técnica do
Pedro, que trabalha na
oficina de cerâmica há
vinte anos, tempo de experimentação
suficientes para garantir
um conhecimento
vasto e
grande qualidade técnica
no cozimento e
esmaltação das obras.
Na oficina de gravura produzi uma
litografia, editada pelo Rogério, técnico com quem
descobri aspectos da produção da gravura portuguesa que
só ficam na memória de quem os presenciou. Uma das
histórias pitorescas é a da artista Helena Abreu, que
hoje está sem dúvida entre os principais nomes da arte
portuguesa. Segundo conta Rogério, e isto é muito
visível na própria obra, Helena se debruça sobre
a imensa pedra, pois que é uma mulher de estatura muito
pequenina, e sem grande esforço corre a mão solta, em
movimentos contínuos segurando o lápis ou a barra
litográfica, de modo a criar as formas básicas e o
volume da figura, para rapidamente encerrar sua sessão sobre a
pedra, garantindo a originalidade do gesto e a pureza da imagem sem
retoques.
Meu conhecimento da litografia já
vem do início dos anos 90, tendo editado várias imagens
pela Glatt & Ymagos em São Paulo. Tivemos
ali um excelente convívio também,
grandes nomes circulavam por lá, Renina Katz, Darel, Fiamming,
Eduardo Lima e mais tantos outros artistas, daí sempre a
oportunidade de discutir modos diferentes de se produzir gravuras.
O espaço das
oficinas é dirigido pelo
artista José
Emídio, grande desenhista
também, detentor de
um conhecimento técnico
muito grande
tanto na
cerâmica como nas
técnicas de gravação
e pintura.

José Emídio nasceu em
1956 em Matosinhos.
E como fez
a maioria dos artistas que
conheci, cursaram belas artes. Ele é
formado pela Escola de
Belas Artes do Porto, e é
Professor no Curso Superior
de Desenho na
Escola Superior Artística
do Porto. A academia é
assunto sério em
Portugal, o que não
impede que a
figura do autodidata também
seja respeitada, porém, o
conhecimento que a
universidade oferece ao artista
é de grande valor
na introdução do
nome no circuito das
artes em Portugal.
Na ausência da
formação clássica,
que já explica
o porque predomina o desenho
como elemento
forte na
obra, o artista deve apresentar
uma sólida fundamentação
de sua obra,
seja no que tange aos aspectos
conceituais como os
técnicos.
Assim, não é incomum
encontrar artistas muito bons lecionando, mesmo porque o estatuto do
professor de artes por lá é muito superior ao daqui.
Outro artista com quem conversei muito é
o António Villares Pires, exímio desenhista e pintor,
também ensinando o desenho há anos, no Porto e em Viana
do Castelo, onde mora. Este artista, que é um dos fundadores
da Árvore também, manteve seu percurso absolutamente à
parte do circuito das galerias. Fez sua aparição com
pinturas abstratas de grande porte, colorido vibrante e de grande
expressão, evocando em sua imagens as forças da
natureza, os mares e céus, árvores e pássaros
que povoavam seu universo interno. É nítido que sua
vivência é com a arte é puramente romântica
e levada com o rigor de cavaleiro medieval. Amparado pelos muitos
volumes que versam sobre as “muitas artes”, por edições
raras dos Lusíadas ricamente ilustradas, ele desenvolve no
silêncio, com paciência de templário, a trajetória
do “pintor”. Vi em seu cavalete a pintura de uma Dona, tiara e
vestido de veludo ornado com rebuscados bordados, óleo sobre
tela, muitas camadas finas velando e abrindo luzes, ao fundo uma
paisagem emoldura o olhar cristalino da moça que segura um
pequeno ramo em sua mão. Visões que mostram que nunca
poderemos dizer sobre o futuro, sobre o que será a pintura e o
que será ensinado como tal.

A despeito do tom pejorativo que o
preconceito pode imprimir ao título, a verdade é que o
peso da instituição é levado a sério em
Portugal, e os “doutores” gostam do respeito que os anos e
esforço de dedicação consumiram até
chegarem aos louros. Bem ou mal, verdade se diga, nunca presenciei
tal condição social em relação ao artista
aqui no Brasil, onde a atividade “passa” mais pela visão
de um ato excêntrico do que propriamente pelo interesse
estético investigativo de refletir na matéria plástica,
a partir da própria subjetividade, aquilo que pode contribuir
para a compreensão da natureza humana.
Assim é que no Porto circulam
mestres, dos quais, José Rodrigues é o que mais agrega
o carisma e a aura do artista pleno. Autor de obras monumentais, de
força extraordinária, transitando pelo erotismo e pelo
mito, pela figura humana e pelas formas naturais, este demiurgo reúne
em si a imagem romântica do Portugal moderno. Na ocasião
era o presidente da Árvore, que agora está nas mãos
do Eng° Amândio Secca, outro conhecedor da arte e grande
entusiasta responsável por inúmeros projetos que a
instituição vem realizando nos últimos anos. Foi
a seu pedido que vim a produzir as obras em regime de parceria e
também a agendar uma mostra individual que deve ocorrer em
Janeiro próximo.
Outro nome dos mais importantes e que devo
mencionar é o de José-Luis Ferreira, crítico de
arte, poeta e escritor, com quem tive o prazer de conviver em sua
Quinta na Serra do Caramulo. O
contato com este intelectual foi decisivo, no sentido de me situar em
relação ao que é a cena das artes, seja em
Portugal ou na Europa. Sua posição consolidada como
intelectual lhe permite transitar com tranqüilidade nos círculos
mais altos com grande irreverência e originalidade. Mentor de
idéias de ponta sobre a condição das artes e do
homem, este pensador desfere artigos cortantes. Segundo sua visão
de si, ou, conforme trechos que escreveu na orelha de sua obra
“Cruzamento na Grande Área” em “Do Autor”: “Amigo do
pintor Egon Karl Nikolaus, do escultor Marcel Gil, de Geneviève
Jandalle e do Historiador de Arte Henri Malvaux, relaciona-se com A.
Malvaux, Gabriel e Jean-Claude Monet, Daniel Cohn-Bendit ...entre
outros ausentes da memória contemporânea, cujos nomes se
apagam num esquecimento pré-histórico. Retornado à
estática lisboeta, afasta-se dos meios literário e
artísticos.”
O contato com José-Luis Ferreira,
entre outras, culmina em minha participação em dois
eventos importantes. Um deles foi o I Salão Internacional de
São João da Madeira, que reuniu artistas de 64 países,
reunindo as obras para uma mostra no Museu da Chapelaria. O nome do
local soa exótico a princípio, mas na verdade trata-se
de um Museu que conta com excelentes instalações,
construído para abrigar o a história da indústria
da cidade, que foi um dos principais centros de produção
de chapéus na Europa e que é mantido pela Câmara
de São João da Madeira.
Outro evento foi a participação
no Seminário Portugal – PALOPS/CPLP – Brasil, que discutiu
as ações promovidas no âmbito das relações
internacionais entre os países de língua portuguesa,
contando com obras de artistas dos oito países membros da CPLP
– Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. O
evento foi organizado pelo Arquiteto e pintor Carlos Lança.
*Mauro
Andriole – graduado em
Filosofia pela
USP, gravador e
pintor, escultor, ilustrador. Suas últimas
participações: I Salão Internacional
de S. João da Madeira e
da Exposição de Arte
Integrada ao SEMINÁRIO
PORTUGAL – PALOP/CPLP – BRASIL; na
SERVARTES , espaço multimídia
no Porto, e também no
Espaço de Arte Vera
Lúcia; no Brasil, participou como
convidado especial
da 3ª Bienal Nacional
de Gravura Olho
Latino, Atibaia, em Maio
de 2007.
Imagens- arquivo
pessoal do
artista
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