O objeto de estudo desse trabalho é o Museu Local, particularmente o museu em pequenas cidades do Estado de São Paulo com até 50 mil habitantes. O termo “local” foi adotado como um contraponto a global e que o situa numa das extremidades do conjunto de tipologias de museus que operam diferentes áreas de influência. Assim sendo , o museu local se diferencia de museu regional, museu nacional ou museu global por ocupar um território físico e psicossocial compatíveis com as dimensões do corpo humano e suas percepções diretas e vivência cotidiana.
Museu como espaço de criação e recriação
Aqui cabe ressaltar o conceito de museu adotado para esse trabalho. É uma interpretação livre do conceito do “mouseion” clássico grego que define um lugar apartado da vida cotidiana onde se recriam tempo e espaço apropriados para o cidadão beneficiar-se da inspiração das nove filhas de Zeus e Mnemósine. Espaço de criação e recriação.
O impulso fecundo da busca do conhecimento cultiva no campo da memória os nove estados de alma que podemos usufruir na morada das musas: Clio, a musa da história nos inspira as sínteses históricas, nosso interesse pela glória dos feitos heróicos e imortais e que nos impulsiona na busca do poder; Euterpe inspira o prazer da intelecção e da decifração; Tália inspira o humor que demole e recria a forma pré-existente; Mepômene inspira a reflexão e a problematização que constitui o ato projetivo; Terpsícore que inspira o prazer estético e nos educa na percepção mais profunda da realidade; Erato que promove a concórdia pela busca da verdade onde repousam os ânimos; Polímnia que inspira as várias interpretações possíveis; Urânia que estimula a percepção das fórmulas abstratas que desenham o universo; e Calíope, a musa da comunicação, do bem dizer, da harmonia entre as musas.
Esse espaço mítico descreve as possibilidades de exploração do espaço do museu, essa espécie de templo e lugar privilegiado para a pesquisa e a busca do conhecimento.

Distribuição de 79
Museus Históricos e Pedagógicos no Estado de São Paulo
Os Museus locais não são inovações no campo da museologia, é, antes de tudo, a extensão natural de um processo de apropriação social dentro da história do colecionismo. As coleções nascem de anseios individuais e a evolução dos museus, como instituição, busca a socialização de seus meios e expressões.

Municipalização dos Museus Históricos e Pedagógicos
(a partir dos anos 90)
Historicamente, no Estado de São Paulo, os Museus Locais descendem dos Museus Históricos e Pedagógicos criados pelo governo estadual no período de 1956 a 1973, no âmbito da Secretaria de Estado dos Negócios da Educação. Foram iniciativas no campo da museologia que, segundo a tese de doutorado de Simona Misan, defendida em 2005 na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo expressam “antigas necessidades de afirmação identitária ao evidenciar por meio de projetos dessa natureza, o caráter hegemônico do Estado”. Tal política visava fazer frente ao fortalecimento do governo federal durante o Estado Novo. Assim sendo foram criados 79 museus em 79 diferentes cidades distribuídas pelo interior de São Paulo nesse período. Inicialmente com Sólon Borges dos Reis que em 1956 implantou os quatro primeiros e principalmente Vinício Stein Campos que de 1957 a 1973 implantou os demais.
Há que se ressaltar, no entanto, que a despeito de serem iniciativas promovidas por uma política governamental tais museus somente puderam existir com a ampla participação das populações locais doando as peças que vieram constituir seus acervos e pela participação dos professores da rede pública estadual de ensino, de onde saíram os gestores desses museus. Professores de História eram deslocados de suas atribuições em sala de aula para dirigi-los e para tanto deveriam cursar previamente os “Cursos de Museologia”, na verdade uma maratona de palestras oferecidas aos professores reunidos em teatros ou cinemas. Desde 1962, quando foi realizado o primeiro curso na capital até 1973 foram realizados 134 cursos de Museologia em 93 municípios do Interior que atendeu a 52.296 professores interessados.

Curso de Museologia em Andradina (1970)
Até 1968 os Museus Históricos e Pedagógicos foram criados e geridos no âmbito da então Secretaria de Estado dos Negócios da Educação pelo Serviço de Museus Paulistas, passando para a alçada da cultura, a partir de 1968, com a criação da Secretaria de Cultura, Esportes e Turismo. Durante a década de 90, os museus passam a ser geridos pelo Departamento de Museus e Arquivos da Secretaria da Cultura quando inicia-se o processo de municipalização que vai transferir para as administrações municipais cerca de 35 desses museus. Outros 27 deles foram extintos, 4 nunca foram instalados e 13 ainda pertencem à administração estadual.

A Cabana de Euclides da Cunha
Casa Euclidiana, a primeira iniciativa em São Paulo
Os Museus Históricos e Pedagógicos foram criados a partir de 1956, mas espelham-se em uma iniciativa muito particular: a criação da primeira casa museu do Estado de São Paulo, a Casa Euclidiana de São José do Rio Pardo. O modelo não poderia ser mais emblemático para museus que deveriam contar com a fundamental participação das populações locais para sua constituição. A Casa Euclidiana veio de fato dar forma oficial a uma manifestação espontânea entre os riopardenses. Desde 1912 um crescente número de amigos e admiradores de Euclides da Cunha, moradores de São José do Rio Pardo, cultuam a memória do escritor participando das festividades que se iniciaram com a primeira romaria em sua homenagem realizada naquele ano no dia 15 de Agosto. A primeira romaria consistiu numa visita ao lugar que mais evocava a presença de Euclides na cidade: a cabana onde ele concebeu as páginas de Os Sertões. Foi essa cabana que o engenheiro Euclides da Cunha utilizava como abrigo para vistoriar as obras de reconstrução da ponte metálica sobre o rio Pardo. Com o passar dos anos, a romaria converteu-se em momento de estudo da vida e obra do escritor e patriota considerado vulto exemplar de consciência cívica.
O movimento euclidiano cresceu ano a ano com o incremento das festividades e manifestações educativas e culturais. Em 1946, sob o governo do Interventor Federal no Estado de São Paulo, José Carlos de Macedo Soares, é promulgado o Decreto Lei que cria a Casa Euclidiana, a primeira casa histórica biográfica com sede na residência ocupada por Euclides da Cunha e sua família em São José do Rio Pardo. A Casa Euclidiana além de organizar as festividades da Semana Euclidiana, anualmente realizada entre os dias 8 e 15 de agosto, deveria abrigar biblioteca e acervo de objetos obtidos por doação ou aquisição que evocassem a presença de seu patrono por São Paulo.

Casa Euclidiana
A Casa Euclidiana teve seu acervo municipalizado em 2001 e permanece como uma instituição animada pela população local, organizando a semana euclidiana com sua maratona de estudos, conferências e festejos; promovendo o acesso e a pesquisa de seu acervo dedicado à memória do personagem ilustre e a vida de São José do Rio Pardo.
A crítica mais contundente aos Museus Históricos e Pedagógicos foi proferida por Mário Neme, quando este era diretor do Museu Paulista entre os anos de 1960 e 1973. Mergulhado nas dificuldades de administrar, com orçamentos muito limitados um museu histórico da importância do Museu Paulista, Mário Neme questiona a validade de se criar uma série de museus de âmbito municipal, mas com administração gerida pelo Estado. Para ele tal política inibiria o surgimento de verdadeiros museus municipais, contrariando os propósitos da iniciativa.
Municipalização e precariedade

Museu Histórico e Pedagógico Alexandre de Gusmão em Itápolis
A situação atual do Museu Histórico e Pedagógico Alexandre de Gusmão de Itápolis parece dar razão às críticas de Mário Neme. Municipalizado em 2001 o museu de Itápolis sofre com a falta de direção e seu rico acervo estimado em 1.717 peças encontra-se a espera de um trabalho museológico que lhes dê sentido. O museu não dispõe de quadro de pessoal permanente. Conta com o trabalho temporário de 4 estagiários, estudantes universitários, que exercem a função de vigilantes, auxiliam na visitação de estudantes oferecendo um limitado serviço de monitoria.

MHP Alexandre de Gusmão em Itápolis
Sala de História Natural
Alguns aspectos positivos, no entanto, demonstram o grande potencial de exploração para um trabalho sistematizado do patrimônio do museu. Além do rico e diversificado acervo de objetos que atestam a cultura material desde os tempos de formação do núcleo urbano, o museu preserva o antigo edifício do Fórum e Cadeia localizado na região central da cidade. Todo seu acervo foi constituído por doações dos munícipes o que contribui, ainda hoje, para uma cultura do museu como espaço cívico, de preservação da memória local através da contribuição coletiva. É ainda uma referência importante como fonte de informações históricas.

Museu Histórico Municipal Luis Saffi em Barra Bonita
O terceiro caso emblemático é o Museu Histórico Municipal Luis Saffi de Barra Bonita. O museu foi criado em 1988 por uma comissão formalmente nomeada pelo Prefeito para esse fim e para produzir uma monografia histórica. O museu e o livro deveriam servir ao propósito de reunir fatos e objetos que servissem como fonte de pesquisa aos estudantes e munícipes. Quatro pessoas compunham a comissão, nenhuma delas com experiência como historiadores e sem ter a mínima idéia de como se compunha um museu. Eram quatro amadores, dentre eles Luis Saffi, ex-prefeito e ex-vereador, colecionador de jornais e objetos antigos pertencentes à história da cidade e Célia Stangherlin funcionária aposentada da prefeitura. Em comum tinham grande apreço ao fato de pertencerem à família de imigrantes italianos pioneiros na região. Com o suporte financeiro da Prefeitura que arcava com as despesas de material e das viagens de pesquisa, essa comissão pôde durante um período de 3 anos levantar dados e visitar museus da região: os Museus Históricos e Pedagógicos Jorge Tibiriçá do município de Jaú e Padre Manoel da Nóbrega do município de São Manoel. Todo seu acervo foi formado com doações que responderam às campanhas veiculadas por rádio e jornais do município para esse fim.
O Museu de Barra Bonita, não se configura pessoa jurídica, mas, apesar de seu quadro de pessoal incompleto, desenvolve importante trabalho de pesquisa e produz exposições temporárias com peças de seu acervo, peças emprestadas de colecionadores e de outros museus. É intensamente visitado por escolares de todos os níveis de ensino, inclusive desenvolve pesquisa em nível de pós-graduação, auxiliando pesquisadores das universidades da região. Conta com extensa lista de parceiros entre instituições e simpatizantes individuais que informalmente contribuem para o desenvolvimento dos trabalhos do museu.
O Museu não possui reserva técnica, todo o acervo encontra-se exposto no edifício que abrigava a Estação Ferroviária desativada e que hoje ocupa lugar de destaque em meio aos equipamentos urbanos que compõem o pólo turístico da cidade. Janaína, a responsável pelo museu, formada em jornalismo e única funcionária fixa, conta com a ajuda de dois estagiários para, entre outras atividades, desalojar móveis, objetos e abrir espaços entre as peças do acervo para poder abrigar as exposições temporárias.
Esses são exemplos luminosos que denunciam a ausência de coordenação em nível estadual que supram as lacunas abertas por iniciativas incompletas como a dos Museus Históricos e Pedagógicos. Estes, por sua vez, foram fundamentais para a disseminação da linguagem dos museus pelo interior, como espaços para potencializar a expressão cultural local.
* Elisio Francisco Zanotti é mestrando do Programa de Pós-graduação Interunidades em Estética e História da Arte da Universidade de São Paulo. Professor de Artes da Rede Estadual de Ensino.
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