
Na abertura dos trabalhos do III Encontro de História da Arte da Unicamp, em 21 de maio, Nelson Aguilar, docente daquela instituição de ensino conversou com estudantes e pesquisadores sobre o seu projeto curatorial para a exposição Vieira da Silva no Brasil, em cartaz no MAM de São Paulo desde 26 de abril.
Afirmou que a idéia inicial para a exposição era trazer para o Brasil dezenas de obras da artista que se encontram em museus de Paris, Nova York, Londres, Lisboa e também no Brasil, mas as necessidades de cortes no orçamento do evento provocou reformulações no projeto. Mesmo assim, a mostra Vieira da Silva no Brasil conta com 116 trabalhos da artista portuguesa e complementa-se com diversos objetos expositivos, tais como fotografias, jornais de época, livros ilustrados por ela, documentários em vídeo, que ajudam a compreender a permanência de Maria Helena Vieira da Silva (1908-1992) no Brasil. Estão presentes na exposição somente as obras das coleções brasileiras, além de algumas de Lisboa, todas produzidas entre os anos de 1940 a 1947.
Metáforas da saudade
Considerada no plano internacional como uma das mais significativas representantes da Escola de Paris*, Vieira da Silva se vê perante o impasse de ter que adaptar seu vocabulário formal e pictórico à nova vivência aqui no Brasil. As linhas acentuadas das perspectivas, segundo Nelson Aguilar, utilizadas como uma metaforização de saudade, assumem espaços de profunda nostalgia. A abstração em seu trabalho, aos poucos vai se compondo com elementos figurativos. Os espaços são preenchidos e povoados pela artista. O Jogo de Xadrez, de 1943, para Nelson Aguilar, representa o sobrevôo de Vieira no Brasil, um quadro que mobiliza a percepção do observador em todos as direções.
Família Artística Paulista e Vieira?
Em resposta aos presentes, Aguilar afirmou que a mostra Modernidade Negociada, exibida também no MAM, na sala Paulo Figueiredo, não foi articulada conjuntamente, com objetivo de estabelecer um diálogo entre as exposições. “ São trabalhos independentes” diz ele, e que não visam aproximar as produções da artista portuguesa ao dos artistas representados na mostra ao lado, apesar de serem trabalhos datados também da década de 40. Compõem aquela mostra artistas em grande parte pertencentes à Família Artística Paulista dentre os quais, Panceti, Volpi, de Fiori, entre outros.
O mesmo ocorre em relação ao período em que Vieira trabalhou com azulejos no Rio de Janeiro. Não há provas de que tenha havido contato direto entre a artista portuguesa e os artistas que trabalharam o decorativismo em azulejos em torno da Osiarte*.
*A Osiarte era um ateliê-oficina criado na década de 40 por Cláudio Rossi Osir para decorar, inicialmente, painéis de artistas como Portinari, e que reuniu produções de vários artistas da Família Artística Paulista, entre os quais Mario Zanini, Panceti, Volpi e De Fiori, presentes na mostra na sala Paulo Figueiredo, no MAM.
* Escola de Paris – É um termo que se refere mais à comunidade de artistas franceses e estrangeiros que trabalhavam em Paris durante a primeira metade do século XX do que a um estilo ou movimento estritamente definidos. Tratava-se, na realidade, do reconhecimento de Paris como centro do mundo da arte (até a Segunda Guerra Mundial) e como símbolo do internacionalismo cultura.
Escolas , Estilos e Movimentos – Amy Dempsey, Cosac&Naif, 2003
Os artistas da Escola de Paris são denominados por Pierre Cabanne e Pierre Restany de “expatriados”, referindo-se a muitos, como Vieira da Silva, que deixaram suas terras geralmente motivados por questões de ordem política.
Leia mais sobre Vieira da Silva nesta edição
-entrevista com Nelson Aguilar
- mostra Vieira da Silva no Brasil
-restauração do painel da Universidade Rural do Rio de Janeiro
- vídeo sobre a vida de Vieira da Silva
- e veja documentário de Vieira da Silva da Fundação Calouste Gulbenkian de Portugal. |