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Margarida Nepomuceno
É voz corrente
entre historiadores da arte, dentro
e
fora do Brasil,
a afirmação
de que o tempo
em que Maria
Helena Vieira da
Silva permaneceu no país, de 1940 a 1947, foi o período durante o qual a
artista teria
produzido os seus principais
trabalhos,
suas obras
primas como Le
metrô, A guerra, A história
trágico-marítma,
La
bibliothèque, Les échecs.
Desde 4 de junho,
final da
mostra Vieira
da Silva no Brasil,
no MAM de São Paulo,
já está
à disposição do público o
catálogo da
exposição.
São 340
páginas de
ensaios e
imagens do conjunto
de
objetos que
ficou
à mostra desde
o
dia 26 de abril,
quando iniciou-se
a exposição. A publicação representa a soma de
esforços de
historiadores de
arte , artistas
e
designers gráficos
para a
produção de um catálogo que é
referência para
a
compreensão da
vida e
obra da artista.
Com ensaios de Nelson Aguilar, curador da
mostra, participações da pesquisadora
Valéria
Lamego e do maestro Henrique
Lian, a
publicação teve o projeto gráfico desenvolvido por Fernando Lemos e por Cláudio
Ferlauto. Fernando Lemos é artista português,
fotógrafo e
pintor,
homenageado recentemente na
Pinacoteca do
Estado com
a mostra À
Luz da
Sombra...(...) e
Cláudio Ferlauto é
arquiteto com
especialização
em design
gráfico,
professor e autor
dos
livros O
Livro da
Gráfica e
O Tipo de Gráfica
.
São
de
autoria de Nelson Aguilar o ensaio inicial do catálogo denominado Encontros
e Desencontros,
bem como o texto Mario
de Andrade:
percurso crítico de
Anita e Vieira da Silva, extraído da sua tese de doutorado , e Vieira da Silva no Brasil, publicado originalmente na revista
portuguesa Colóquio Artes.
Dois
mil
dias
no
deserto: Maria Helena Vieira
da Silva no Rio de Janeiro,
1940-1947 é
título do
ensaio de
autoria da pesquisadora Valéria Lamego, autora da A
farpa na
lira – Cecília
Meireles na Revolução de
1930. Também
compõem o quadro
de
ensaístas o
maestro Henrique
Lian, historiador de arte, com: Vieira da Silva e a
música brasileira.
Através desse
trabalho,
Henrique Lian completa a
visão sobre
a
sensibilidade da
artista analisando
as influências e
preferências musicais
de
Vieira da Silva, desde o
início de
sua formação,
em Lisboa,
até as
tardes musicais
com Murilo Mendes.
Encontros
e Desencontros
Em Encontros e Desencontros,
Nelson Aguilar
situa em vários
momentos a
presença da
artista portuguesa
na cena artística
brasileira,
voltada à época, para um modernismo com matizes nacionalistas.
Discorre sobre a
aproximação da artista com intelectuais da
literatura como
os
poetas Jorge de
Lima, Manoel
Bandeira, Murilo Mendes, grande amigo,
e Vinicius de Morais; com artistas como Guignard,
Carlos Scliar-de quem tornou-se
muito amiga-, e
Lasar Segall. Cita seus relacionamentos com o
fotógrafo Athos
Bulcão, além dos
críticos como
Rubens
Navarra, entre outros.
Merece destaque a presença de Cecília
Meireles, uma amizade especial
e
coincidente, que resultou
na
indicação de Vieira da
Silva para a
decoração
do painel da
Universidade Rural
do
Rio de Janeiro,
antes Escola
Nacional de
Agronomia. Na análise desse
painel, Aguilar já identifica
um fazer
característico
da artista no
Brasil que combinaria
a recorrência da
figuração em suas composições
com o tratamento abstrato.
O texto reflete
com cuidado
através do
estudo das
obras as pesquisas de
Vieira
da Silva no uso da
perspectiva:
linhas que
surgem
bem definidas na
sua composição
e
que oferecem
múltiplas
possibilidades de observação, nada que remeta à
“visão monocular
do espaço renascentista”
,
como afirma
Aguilar. Maria Helena Vieira
da Silva deixou para trás,
ao vir para
o
Brasil, o convívio com
a arte que era praticada
na Escola de
Paris. Aguilar analisa
essa passagem, as modificações que teriam
ocorrido na sua pintura
diante da
realidade brasileira
modernista, de
glorificação do nacionalismo. Da
abstração teria a artista passado ao figurativismo, ou o
contrário?
Vieira da Silva permaneceu
no Brasil de
1940 a 1947, e para o
historiador,
no princípio, seus trabalhos
não
se
diferenciariam muito de suas experiências anteriores,
dos tempos em
que ainda estava
em Paris
:
“A presença do
Brasil se acusará em sua obra progressivamente”,
explica Aguilar.
“Dois
mil
dias
no
deserto (...)”
A editora Valéria
Lamego assina o ensaio da
página 53 do catálogo
intitulado “Dois mil dias no deserto: Maria Helena Vieira da Silva no Rio de Janeiro, 1940-1947”,
através
do qual procura recuperar passagens e histórias pouco difundidas da artista portuguesa
durante o tempo
que permaneceu no Brasil. "Deserto",
sugere Lamego, talvez referindo-se
às dificuldades que o casal, especialmente Vieira
da Silva, teria enfrentado em um
país
que também sofria
com os efeitos
da
guerra e da
política centralizadora
do Estado Novo,
momento em
que as artes plásticas viviam experiências
que dificultavam a
aceitação da sua arte. Através de
um vasto
material de
pesquisa como
as
cartas que
Vieira
escrevia aos amigos, depoimentos e
entrevistas, Valéria Lamego desenha um interessante panorama da
cidade do Rio
de
Janeiro, local que
recebeu
refugiados de guerra de
várias
partes do mundo.
Detalha passagens do
casal Vieira-Arpad
no relacionamento que mantiveram
com intelectuais
brasileiros, sobretudo
com escritores .
As visitas, os passeios, a convivência na
‘pensão das
russas’, o
histórico bairro
de
Santa Tereza. A
historiografia
apresentada por Lamego
não segue
padrões cronológicos,
antes, ressalta na formação de
Vieira o requinte intelectual
com que foi criada: o gosto pela música, a
convivência em
bibliotecas,
La Grande Chaumière
- a
academia em
Paris-.
Passagens que
valorizam
o aspecto sofisticado
da artista e que
nos ajudam a entender as
dificuldades que
teria
enfrentado no Brasil quando percebeu,
logo de
início, segundo a
pesquisadora, que "o
país jamais
conseguiria absorver
sua arte".
Ilustram o livro-catálogo
imagens de todas as obras expostas:do material fotográfico,
dentre os quais
a
fotonovela encenada
pelo casal
Vieira-Arpad
para a revista
O
Cruzeiro, de 1945, pertencente ao acervo bibliográfico
do MAM bem como de
imagens do painel
da
Universidade Rural
do
Rio de Janeiro, de
1975 até 2007.
Serviço
Catálogo
“Vieira
da Silva no Brasil”
Projeto gráfico de Fernando Lemos e Cláudio
Ferlauto
340 páginas - versão em inglês- cor
R$ 90,00
Biblioteca do
MAM-SP
Endereço:
Parque do
Ibirapuera, av. Pedro
Álvares Cabral, s/nº - Portão
3
tel
(11) 5085-1300
Site: www.mam.org.br
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