A pergunta O que, agora, é museu? constituiu-se na questão inaugural da 6ª semana de Museus da USP, organizada pelo MAC de São Paulo– Museu e Arte Contemporânea - . Em mesa coordenada por Cristina Freire, docente do MAC e membro da Comissão Científica do evento, o escritor norte-americano e diretor do Programa de Estudos e Museus da Universidade de Nova York, Bruce Altshuler, discorreu sobre o papel dessas instituições frente às necessidades sociais e culturais do novo século.
Inicialmente, Altshuler fez um histórico das origens dos museus e dos enormes desafios que têm enfrentado. De um propósito colecionista, um exercício de curiosidade, uma atividade circunscrita às classes nobres, a instituição ganha corpo no século 19, como um templo neutro, protegido, um plano destacado de abstração. Quando o plano econômico se dirige ao mercado, os museus convivem com as exposições universais incorporando uma nova lógica. O objeto artístico se transfigura em fetiche, e o espaço museológico espetacularizado transforma-se em um espaço de lazer, integrado na lógica de consumo.
Neste histórico, continua o escritor, pleno em reformulações, condicionados por questões políticas, econômico-sociais e tecnológicas, os rumos tomados pelo museu não podem ser revelados fora do contexto da história da arte. Altshuler assinala o importante legado de Duchamp, cujas idéias levaram a uma nova articulação do triângulo arte-museu-público. Do cubo branco, visão impessoal herdada historicamente, também fruto da visão autônoma da arte, o museu redefine-se por um público ativo trazendo novos perfis e começa a operar em novos patamares.
Esta concepção revisada impõe novas formas arquitetônicas, absorvendo tecnologias que permitem ao interessado por arte o usufruto do espaço e uma absorção participativa da arte. Um dos diferenciais do novo museu é sua integração ao público através de ações educativas bem como o fato de estar assumindo o caráter de fórum de discussões. Integrando vertentes da concepção ampliada da arte, o museu abre as portas para a arte coletiva, performances, happenings, entre outras.
No tocante a temáticas curatoriais, o espaço converte a acepção duchampiana, onde “o trabalho de arte só existe quando liga algo a alguém” nos lembra o expositor. A tradução para esta instituição se dá, além dos temas mais generalizantes, por meio de questões locais, onde a comunidade cumpre atividades no resgate histórico-cultural.
Além da função junto à sociedade, a atividade museológica também incorpora o papel da memória sócio-cultural, atividade pontuada pelo palestrante. Defensor de documentações das exposições na perspectiva da história da instituição e como um testemunho da recepção do público, Bruce Altshuler acredita que esta atividade deve ser contínua dentro do museu. Destaca-a como parte do discurso do museu, e, portanto, a sua importância é equivalente ao seu acervo. É a sua faceta intangível. Tal documentação também deve ser enriquecida pelo testemunho dos artistas participantes, pela interpretação das obras ali inseridas. Bruce Altshuler ressalta que esta prática já está incorporada em muitos museus norte-americanos, onde as galerias também colaboram com o material de memória dos artistas. Por fim, a biblioteca do museu e o catálogo expositivo, materiais tradicionais no campo de pesquisa, ainda se mostram importantes para estas referências.
Quanto ao conceito dos chamados New Musem ou, mais especificamente, da rotatividade do acervo, o expositor não acredita que tal prática se estenda por muito tempo por acreditar, principalmente, que muitas obras não são tão facilmente vendidas. Entretanto, o museólogo ressalta outras práticas como a política integrada de museus, e exemplifica com o caso do Metropolitan e o MoMa , que através desta prática, acabaram negociando obras como a de Picasso, que passou da primeira à segunda instituição. Cita outras possibilidades como aquisições compartilhadas, uma realidade nos EUA.
Sobre a participação da iniciativa privada nos museus Bruce Altshuler afirmou concordar com essa prática e que tais recursos são importantes na execução das atividades museólogicas, como exposições, por exemplo. E quanto à manipulação ou interferências para fins particulares, declara que tudo depende da atuação dos curadores e da área educativa. Sem citar nomes, citou o caso do afastamento de um importante curador que se demitiu por não concordar com caminhos propostos.
Finalizada a palestra, ficam as experiências que se constituem em material rico para reflexões de caminhos e posições para os nossos museus.
Leia mais sobre a 6ª Semana de Museus:
- entrevista com Ulpiano Bezerra de Meneses
-entrevista com Helouise Costa, coordenadora do evento
-palestra de Maria Helena Machado sobre a coleção do Peabody Museum
-palestra de Toshio W. sobre o reconhecimento da arte japonesa pelo Ocidente
-palestra de Maria Cecília França sobre a formação dos museus brasileiros
- apresentação de pesquisa de Elisio Zanotti sobre os museus locais
Imagem - site Museu da Maré |