A aparente e
única coincidência
entre as
obras dos artistas
Tuneu
e Guilherme Werneck, expostas recentemente em Lisboa, parece restringir-se somente
na escolha da
cor que
acabou
por nomear
a
mostra: Brancos. Há outras, afirma Tuneu, artista
e
docente da
Unicamp, para quem
reconhece em Portugal,
logo abaixo
na
entrevista, o território propício para a
convergência da
tradição com a
contemporaneidade. A mostra Brancos foi realizada na Galeria Diferença,
em Lisboa, formada
há três décadas
a
partir de uma
cooperativa de
artistas plásticos,
a mesma que
recebe
com regularidade
artistas brasileiros
para um convívio cultural.

Galeria Diferença
Tuneu é
professor de
pintura no curso
de
graduação do Instituto de Arte da
Unicamp. Foi aluno de
Tarsila do
Amaral e assistente de
Willis de
Castro e Hércules Barsotti.
Participa de inúmeras mostras, individuais e
coletivas, desde final
dos
anos 60, a
última delas,
no MAM de São Paulo,
em 2006, denominada
Ao
mesmo tempo
o
nosso tempo
e
na Dan Galeria,no mesmo ano, Arte concreta e neoconcreta: da
construção
à
desconstrução.
Possui obras na
Pinacoteca do
Estado de
São Paulo,
no MAC- Museu de
Arte Contemporânea
da
Universidade de
São Paulo-,
no MAM-SP, Museu Nacional
de
Belas Artes, no Rio, e em outras
instituições. O trabalho apresentado
em Lisboa
é um conjunto
de
pinturas e
acrílicos em
papel.

Tuneu e Werneck
Guilherme Werneck
graduou-se em artes
visuais em Londres
depois de
formar-se em Biologia,
na Universidade Gama
Filho no
Rio de Janeiro.
Participa de
individuais e
coletivas desde 1983
quando ainda
cursava a Chelsea School
of Fine Arts, em Londres.
Em 2000,
de volta ao
Brasil, apresentou seus trabalhos
na
galeria de Arte
da
Unicamp. Aos portugueses, Werneck apresentou suas esculturas de materiais diversos e relevos.
Entrevista
com Tuneu,
artista e
professor do
Instituto de
Artes da Unicamp,
sobre
a mostra Brancos,
realizada com
Guilherme
Werneck, em Lisboa.
Começamos
um verdadeiro
intercâmbio com Portugal

Tuneu, Galeria Diferença
Cores Primárias –
Qual é sua relação
e a do artista
Guilherme
Werneck com Portugal?
Tuneu - A minha relação
com Portugal
é muito antiga
pois meus pais são portugueses.
Guilherme é meu amigo
e grande admirador de Portugal. Procuramos ir todos os anos lá.
Em uma dessas
oportunidades fomos
convidados pela
galeria a
expor nossos
trabalhos.
A Galeria Diferença
é uma galeria
antiga,
existe há mais de
trinta anos e
trabalha com
artistas modernos e contemporâneos. Foi
lá que
realizou-se
a primeira exposição
de Cabrita Reis,
jovem artista
reconhecida,
hoje, internacionalmente. Regina Silveira e
vários outros
artistas brasileiros lá expuseram nessa galeria.
Cores Primárias
-
Peter Cohn assina o texto de
apresentação do
catálogo. Ele foi
o curador da
mostra?
Tuneu - Peter Cohn só aceitou
realizar a tarefa
de
escrever o texto
pelo fato de
acompanhar nossa
produção,
minha e a de
Guilherme Werneck, e
nos conhecendo bem
entendeu
a nossa proposta
de
unir os nossos
trabalhos.
Cores Primárias -
Que tipo de
diálogo seu
trabalho,
marcadamente geométrico, estabelece com as
obras de Guilherme
Werneck de
natureza tão
diferente?
Tuneu -
A nossa união
se
deu pelos opostos,
orgânico e
geométrico, o que nos
une é o
caráter de
objeto que
os
dois carregam, e o
fato dos
dois trabalharem
com branco.
Cores Primárias-
Como foi
a recepção dos
portugueses? Como é
a relação dos galeristas portugueses com
os
artistas brasileiros
?
Tuneu - Achamos a
recepção ótima, a galeria
é
bem freqüentada
pelos artistas
e
intelectuais portugueses,
os
melhores. Hoje há
mais intercâmbio.
Muitos artistas
brasileiros estão
expondo em Portugal
e
vice-versa.
A
Pinacoteca do
Estado de
SP tem mostrado diversos artistas
jovens portugueses
. Acho que começamos
um verdadeiro
intercâmbio.
Cores Primárias-
Nesta edição estamos mostrando a experiência
de um artista
paulista, Mauro
Andriole, em residência
no
Porto. O que ele
verifica
é que há
ainda um
culto a algumas tradições
da
arte com
a
preocupação do
desenho, do traçado. Como Portugal
está situado, senão todo,
mas Lisboa, dentro
da
arte contemporânea?
Tuneu
- Acho que há
um culto
às
tradições, mas há arte contemporânea boa, Portugal
mudou muito, só acho
que as coisas
(conservadoras
ou não)
são mais
possíveis
lá.
Há novos museus
e centros
culturais
em plena
atividade e mostrando o que há
de melhor em
Portugal,
e de todas as partes do
mundo. O
Centro Cultural de
Belém em Lisboa
é um exemplo.
Em Brancos*
Peter
Cohn

Guilherme Werneck
(...)
Nesta mostra
de
Tuneu e Guilherme, ainda que
o propósito
não
tenha sido explicitamente
afirmado e,
talvez, nem conscientemente
assumido, o fato
da
exposição ser Em Brancos é fundamental para a plena percepção
da antítese
dialética
que sua justaposição
nos oferece.
A
ausência de
outras cores na
obra dos
dois artistas
elimina
possíveis derivações
na sua interpretação,
forçando-nos à leitura na
única direção
que resta,
a da diferença nas
formas e estruturas
e,
portanto, aos ismos a que se
filiam.
A obra de
Tuneu, organizando planos, entremostrando espaços
e
linhas reais
ou virtuais, nas
intersecções e
justaposições de
superfície e
linhas, o filia
à mais autêntica
corrente histórica do concretismo brasileiro.
Sua obra
transita
nos territórios
da
pintura e do
objeto, dando à
abstração geométrica uma realidade sutilmente materializada, delicadamente
palpável,
saindo às vezes da
bidimensionalidade sem fugir,
no entanto, da geometria prescrita
nos cânones
das
teorias concretistas
e
construtivas.
Os trabalhos
de
Guilherme, com suas
formas proto-orgânicas são
realizados, no mais
das
vezes, com materiais
mais macios, moles e
transparentes, só deixando
a
entrever a
geometria subjacente
e
inerente às
próprias
formas dos
órgão a
que aludem,
objeto central
na
iconografia de sua
obra.
(...)
Este contraste entre o
cerebral da obra
de
Tuneu, e o emocional, cheio de
referências e
alusões do
Guilherme, expostos e
contrapostos em Brancos pelos dois artistas, oferecem nesta mostra
a
possibilidade de se ver a
estética,
tendendo a realizar uma
sínteses da
percepção das
diferentes maneiras
de
apreender os
sentidos da
vida.
Imagens
– arquivo
dos
artistas, site
da
Galeria Diferença
e catálogo
da mostra.
*
Texto de
apresentação de Peter Cohn para o
catálogo da
mostra Brancos,
realizada de 20 de janeiro a
3 de março deste
ano( 2007) na Galeria Diferença,
Rua São
Felipe
Néri, 42 Cave, 1250-227, Lisboa.
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