Cores Primárias - Durante a 6ª Semana de Museus da USP , na mesa-redonda O Museu como lugar da imaginação, o senhor falou da existência de campos de força e de zonas de contato. Como traduzir esses conceitos para os museus de hoje à luz do que deva ser entendido por diversidade cultural?
Ulpiano Bezerra de Meneses - A noção de "zona de contato" (que Mary Louise Pratt formulou para estudar viagens e transculturação nas relações entre colonizadores e colonizados) implica a noção de campos de força, pois não se limita a um mero desfile enciclopédico de diferenças culturais, com seus verbetes estanques, mas inclui o confronto e um pontencial de transformação dos envolvidos. A mera diferença, por si, pode ser estéril: por isso, sociólogos e antropólogos que têm estudado o assunto (como Bhabha, Parekh, Taylor), distinguem diversidade cultural e diferença cultural e mostram a insuficiência das políticas multiculturais que se preocupam com reconhecer e exibir a diversidade cultural, mas são incapazes de incorporar as diferenças culturais. Os museus, ingenuamente, muitas vezes se prestam a essa distorção.
Cores Primárias – Na mesma oportunidade o senhor não coloca em campos opostos a ficção e o conhecimento. Em que circunstâncias nos museus de arte a ficção pode transformar-se em conhecimento?
Ulpiano Bezerra de Meneses - É preciso atentar para o que tomei como ficção, utilizando a etimologia da palavra, que vem do verbo latino fingo, relativo à atividade do oleiro. O oleiro fabrica formas. Nós também fabricamos formas -- formas verbais, conceituais, visuais, sonoras, performáticas, etc. -- para dar sentido ao mundo, às coisas, a nós mesmos. A linguagem direta, denotativa, não dá conta da realidade; a poesia, dá: por ela a linguagem humana é capaz de dizer o indizível e (para mencionarmos a linguagem prioritária do museu), é capaz de tornar visível o invisível e, mais que isso, tornar visível o próprio visível que nos escapa. O museu, e não apenas o museu de arte, tem o potencial extraordinário de permitir o conhecimento associado à imaginação (uma das matrizes da ficção), à sensorialidade, à afetividade.Não é por acaso que se considera o museu como uma das primeiras tecnologias epistemológicas do Iluminismo, de que ele é filho. Quanto às possibilidades de nos museus de arte a ficção se transformar em conhecimento, dei vários exemplos, dos quais reitero aqui, pelo seu interesse, a exploração crítica do universo imaginário do museu e seus vícios pelos "museus de artista" (Broodthaers, Fred Wilson, o Museu de Tecnologia Jurássica de Los Angeles, a exposição do museu como musa de McShine e outros casos).Também procurei, a respeito, ver os aspectos positivos de museu imaginário de Malraux e sua versão contemporânea, o museu virtual.
Cores Primárias - O senhor fala no museu como instrumento de alienação, que desloca objetos de suas funções originárias para outros contextos, e ao mesmo tempo o senhor fala que os museus de arte devem expor seus objetos sem precisar ensinar ...“dar lições de sociologia”. Como, então, ressignificar esses objetos sem uma ação pedagógica que acompanhe?
Ulpiano Bezerra de Meneses - Não penso que o museu seja instrumento de alienação, apenas citei Quatremère de Quincy para apontar que esse julgamento já ocorria nos primórdios do museu moderno, na virada do séc.XVIII. Para mim, essa "alienação" é precisamente o que chamei positivamente de ficção. O museu é um lugar privilegiado de ficção e não de reprodução ou réplica do mundo extra-museu com seus contextos puramente empíricos.Quem diz que os museus de arte devem expor seus objetos sem precisar "dar lições de sociologia" é Claude Lévi-Strauss, falando do Museu de Orsay. Pessoalmente, acredito que o museu não pode desperdiçar o potencial representado pelas múltiplas dimensões (estéticas, históricas, sociológicas, antropológicas, psicológicas, filosóficas, materiais, tecnológicas, econômicas...), de que os objetos expostos dispõem. O que não se pode é ignorar a primazia do objeto no museu e asfixiá-lo com informações "sobre" ele, sem criar condições para leitura de informações que venham "dele". E aqui estou de acordo com Lévi-Strauss: se a ação pedagógica se conduz predominantemente por informação verbal, que se escreva um livro a respeito! Não me parece que o essencial da ação pedagógica seja "ressignificar" os objetos: procurar suas significações "verdadeiras" ou "legítimas" seria imaginar o museu como réplica deformada do mundo extra-museu, deformação que precisaria ser purificada para se chegar às intenções e aos usos e funções "originais". Ora, proponho justamente o museu como espaço de ficção, em que tais motivações, usos e funções originais e todos as apropriações, aculturações, transculturações subseqüentes -- em suma, a biografia dos objetos -- possa emergir. Para mim, o essencial da ação pedagógica no museu deve ser a aprendizagem da leitura senso-cognitiva, para dar autonomia ao usuário. Tal como na alfabetização, em que o domínio do código escrito abre espaço para o domínio de múltiplos horizontes e para o controle dos significados.
Leia mais sobre a 6ª Semana de Museus:
-entrevista com Helouise Costa, coordenadora do evento
-palestra de Maria Helena Machado sobre a coleção do Peabody Museum
-palestra de Toshio W. sobre o reconhecimento da arte japonesa pelo Ocidente
-palestra de Maria Cecília França sobre a formação dos museus brasileiros
-apresentação de pesquisa de Elisio Zanotti sobre os museus locais
-palestra de Bruce Altshuler sobre os museus de hoje
-programação do evento |