Arte e Vida na
série de gravuras das Touradas
O fotógrafo David Douglas Duncan esteve durante três meses na casa de Picasso perto de Cannes, e foi um dos poucos profissionais que conviveu com o artista, na época com 75 anos, partilhando e registrando seu cotidiano. Pouca coisa lhe escapou aos olhos nesses meses. Duncan registrou, com textos e imagens, todo o processo que deu origem à série de gravuras sobre as touradas.Essa experiência resultou na publicação do livro O Mundo Privado de Pablo Picasso, em 1958, cujos trechos publicamos a seguir.

Parte I – A Tourada
“Pouquíssimos acontecimentos atraíam Picasso arrancando-o de La Californie ( sua vila na França). Não atendia a nenhum convite para funções públicas ou culturais e raramente comparecia até mesmo à inauguração de exposições de trabalhos seus. Mas havia uma exibição por causa da qual largava tudo mais. Era a tourada em Arles (...)”
“Durante a tourada propriamente dita – toda cheia de bandeiras ondulantes e aparato de trombetas....cavalos agonizantes, banderillas fincadas, capas girando e selvagem histeria...um silencia estático..um momento de respirações paradas...depois a morte – Picasso permanecia sentado.imóvel, com as mãos nas ilhargas, calado, sozinho. Era impossível ver seu rosto. Mas, sem sombra de dívida, tinha apenas o touro e o matador refletidos em seus olhos. Não tomava partido. Era o espectador absoluto”.
Parte II- O isolamento
“ Quatro dias após a tourada, Picasso desceu ao meio-dia, com um andar que fazia jurar que estivera ausente apenas um instante, Jacqueline explicou antes que ele estava bem, perfeitamente bem – que apenas permanecera sentado na cama, pensando. Agora, conquanto chovesse lá fora, ele parecia estranhamente alegre. Nós cinco, Picasso, Jacqueline, Sabartés (o fiel amigo), eu ( o fotógrafo) e o desconhecido do porão, Jacques Frelaut, que era um grande mestre gravador de Montmartre, almoçamos na cozinha, aquele dia”.
“ Acabada a refeição, Frelaut voltou para o porão. Jacqueline enrodilhou-se na velha poltrona desmantelada a um canto da mesa de jantar, apoiando os pés sobre um gato de bronze. Sabartés cochilava na cadeira de balanço de seu amigo, na sala seguinte. E eu permanecia atrás do mestre, observando por cima de seu ombro o desenrolar de um espetáculo realmente grandioso. Vi Picasso pintar por inteiroa tourada espanhola, desde o toque da trombeta inicial até o arremesso fatal”.

Parte III – A Gravação
“ Num período de exatamente três horas ele fez reviver a corrida de Arles. Mergulhando
seu pincel fino numa solução negra de açúcar xaporoso, pintava sobre reluzentes lâminas de cobre. E enquanto ele pintava, eu via, mais uma vez, o cavalo donairoso conduzir matadores e picadores para dentro da arena...(...)”.
“ Não havia pressa nenhuma na maneira de Picasso trabalhar. Simplesmente começou
do lado esquerdo e foi pintando pelo lado direito. Tinha qualquer coisa de escriba medieval escrevendo um conto romântico sobre tourada. Mas, ao invés de palavras fluindo em escrita com ornatos, o seu conto era de espadas reluzentes e corpos quebrados, e a poesia da violência do homem (...)”.
“ Nenhuma lâmina precisou de mais de um par de minutos para ficar completa. Uma vez o pincel erguido em cima do cobre, toda a pintura sob ele estava acabada, para sempre”.
Parte IV – No porão, terminando de gravar
“ Após pintar a última lamina, Picasso foi diretamente para o porão. O lugar era um labirinto de depósitos parecendo celas, das quais apenas uma estava vazia. (...) Tratava-se de uma oficina de gravura. Picasso mudara para ali sua própria prensa de gravador quando comprou La Californie. Jacques Frelaut estivera silenciosamente limpando e equilibrando seus rolos e a prancha de compressão. Tudo se achava pronto quando Picasso desceu a escada arrastando seus macios chinelos marroquinos”.
“Tornou a pegar o pincel esguio. Tornou a instalar-se diante do cobre sobremaneira polido em sua superfície, com uma solução macia que mais parecia melado – desta vez perclorido de ferro concentrado. Estava fazendo aguatintas, acidulando as imagens açucaradas (...)”.
“Jacqueline ficou sentada sobre uma caixa vazia, esperando. Esperava, observando Picasso trabalhar”.

Parte V – A impressão
(...) “As horas passavam depressa. Ninguém havia comido. Ao crepúsculo, Sabartés desceu do estúdio onde estivera lendo. Não havia nenhuma idéia de interromper o trabalho que estava sendo feito sobre os desenhos enquanto Frelaut não passasse tinta na primeira lâmina e tirasse a gravura. Todos os olhos acompanhavam o arco imponente das manivelas enquanto Frelaut rodava a prensa. Fiquei surpreso quando a gravura apareceu. Ninguém disse nada. Não houve um som. (...)”.
“O tão aguardado comentário veio por fim – apenas um sussurrar leve de vozes escassamente audíveis através do cômodo”.
“Picasso e Frelaut voltaram a trabalhar, raramente trocando uma palavra. Picasso continuava a desenhar sobre outras placas. Frelaut lavava-as e passava-lhes tinta, depois intrometia-as na prensa”.
“ O mestre estava disposto a prosseguir trabalhando noite a dentro. Sabartés dormitava num canto. Jacqueline subiu para a cozinha a fim de preparar a ceia, que comemos muito depois da meia-noite”.
Textos e imagens do livro O Mundo Privado de Pablo Picasso, de David Douglas Duncan, lançado em 1958 pela Ridge Press (EUA) e traduzido pelo crítico brasileiro José Geraldo Vieira.
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