Em 1958, o Jornal Ultima Hora deu destaque para a
consagração das gravuras de Fayga Ostrower e Marcelo
Grassmann na Bienal de Veneza, fato que no Brasil foi
festejado pelos companheiros Aldemir Martins e Livio Abramo.
Já na época, Livio se manifestava contra a periodicidade
das bienais: “Há bienais demais”
"Consagrada na Europa a Gravura Brasileira".
Última Hora, São Paulo, [28 de junho de 1958].
Por duas vezes um dos maiores concursos do mundo, a Bienal de Veneza, consagrou a representação brasileira. O ano, 1956, glorificou o nome de Aldemir Martins; 1958, glorifica outros dois brasileiros: Fayga Ostrower e Marcelo Grassmann. De um momento para o outro o nome de um jovem nordestino, trabalhando modesta e obscuramente, passou a circular em todas as rodas artísticas do País. Aldemir Martins, consagrado em Veneza, era consagrado no Brasil. Fayga Ostrower, 18 anos de gravura, já famosa no Brasil, impôs-se ao severo júri da Bienal. Marcelo Grassmann, da nova geração, provou que esta não é somente uma promessa e sim uma realidade. Lívio Abramo, 23 anos como gravador, membro constante do júri das nossas Bienais, crítico e respeitado como artista pelo seu intenso labor em prol do desenvolvimento da gravura no Brasil. Falando sobre as Bienais italiana e brasileira, seus problemas e suas lutas, Aldemir, Lívio e Grassmann teceram interessantes considerações sobre os certames.
Aldemir Martins: Arte não é só Regionalismo
Saindo do bar do Museu de Arte Moderna, ponto de reunião da intelectualidade paulistana, como que abrindo passagem na cortina de fumaça que dominava o ambiente, Aldemir Martins prontificou-se amavelmente a falar sobre a Bienal de Veneza. Com seu acento bem nordestino, disse:
"Mas uma vez, a Comissão Brasileira para o julgamento dos artistas brasileiros a serem enviados a Veneza, adotou um critério justo: poucos artistas e muitos trabalhos. De fato, não é possível julgar um pintor por um ou dois trabalhos. Antigamente, enviávamos muitos artistas com poucas telas e o resultado era que não poderia sair prêmio algum para ninguém. Não havia material suficiente para dar ao júri uma possibilidade de escolha. O principal deste prêmio à Fayga e ao Marcelo , é que ficou provado de uma vez por todas que não somos premiados pelo nosso exotismo, como deixa entrever certa imprensa. Pensam que premiaram os meus cangaceiros e não os meus trabalhos. Pois bem, à Bienal de Veneza não enviei nenhum deles. Mandei gravuras que haviam passado despercebidas num concurso do Rio de Janeiro e que nada tinham de exótico. Vemos com a consagração de Fayga e Grassmann que a qualidade da gravura brasileira é intrínseca, independentemente de seu regionalismo".
– Em sua opinião, qual o maior gravurista brasileiro? – perguntamos. Com certa relutância respondeu:
"Sem querer, em absoluto, desmerecer a qualidade de nenhum outro gravador, na minha opinião, dentre todos os da nova geração é Marcelo Grassmann o maior. Artista probo, trabalha árdua e conscientemente, com um senso autocrítico e modéstia formidáveis. Fayga teve mais uma vez seu imenso valor reconhecido e compensado com este recente prêmio. Fiquei muito contente pelo fato de ter sido premiada."
Brasil Sem Pavilhão
A modéstia de Marcelo Grassmann realmente salta aos olhos. Sua atitude hesitante em falar de si mesmo, de sua obra, pontilhou toda nossa entrevista. Repetiu várias vezes que seu prêmio não era de importância e que a verdadeira premiada havia sido Fayga. Inquirimos sobre qual havia sido a razão que levou a Comissão Brasileira a enviar quatro gravadores e nenhum pintor. Afirmou que:
"O Brasil não tem pavilhão, as nossas delegações têm que estar confinadas ao pequeno espaço que possuímos. Além do mais, a escolha nunca pode deixar de ser subjetiva, pois é uma comissão formada de homens que, como quaisquer outros, têm suas preferências, seus gostos pessoais. Fomos com uma representação muito restrita, o que prejudicou o aparecimento de gente nova nas exposições. À novíssima geração, também deve ser dada uma oportunidade. Não podem estar limitada à crítica da casa; deve ouvir críticas alheias, opiniões de juízes tarimbados no contato artístico. Deveríamos adotar o critério da maioria dos países: há uma "estrela" que envia um grande número de trabalhos e muitos outros com menos obras. Isto, porque os dois critérios extremos são prejudiciais: enviar um só artista é pouco e, muitos, impossível. a França enviou Braque como figura central e vários outros com poucas obras."
Qual o prêmio que recebeu e qual sua significação? – resolvemos perguntar, dada sua insistência em afirmar que não era de grande importância:
"O grande prêmio coube mesmo à Fayga, é do mesmo tipo do que recebeu o Aldemir Martins. O meu é o chamado Prêmio Aquisição, que é como que uma garantia de qualidade para que a obra possa ser adquirida".
Passando rapidamente sobre a sua carreira artística, Grassmann asseverou:
"Sempre estudei no Brasil. Só em 1953, quando recebi o prêmio de viagem do Salão Nacional de Arte Moderna, é que passei dois anos na Europa. No Exterior, só realizei uma exposição individual em Veneza, isso é tudo sobre minha carreira artística. Agora, resta-me continuar trabalhando, e muito."
Há Bienais Demais
Lívio Abramo, tem 23 anos de gravura no Brasil. É, como ele mesmo diz, "um dos velhos 'dinossauros' da gravura". Calmo, falando pausadamente, explicou-nos as razões da escolha da Comissão Brasileira e os males das Bienais.
"A deliberação tomada por uma comissão do Museu de Arte, formada por críticos de arte e artistas do Rio e de São Paulo. e, por representantes do Itamarati, levou em conta as circunstâncias. A exposição retrospectiva de Segall abarcou duas das três salas existentes. Com o que sobrou, não poderíamos enviar uma delegação numerosa. Por este motivo, decidiu-se o envio de quatro gravadores: Goeldi, Fayga , Grassmann e eu. Por que gravuristas e não pintores?
Primeiro: porque a gravura ocupa menor espaço do que a tela de pintura. Segundo (e fundamental): o Brasil está bem colocado no campo da gravura, internacionalmente falando, havendo, por isso, maiores possibilidades de se distinguir.
Pesquisa: Priscilla Rufinoni.
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