Gravuras de Anita Malfatti
Recuperadas

Anita Malfati , como já se sabe, teve uma contribuição pioneira no movimento modernista do Brasil marcada pela polêmica exposição de 1917, quando alguns de seus trabalhos teriam desencadeado a fúria da crítica mais conservadora da época. Pouco se conhece, entretanto, que nessa exposição,antes ainda, a de 1914, ela já estaria exibindo uma produção de gravuras , possivelmente, produzidas em Berlim, onde estudou, de 1911 a 1913, e EUA, de 1915 a 1916. Parte dessas gravuras, foram apresentadas recentemente pelo IEB – Instituto de Estudos Brasileiros – ( de dezembro de 2005 a abril deste ano) na mostra Anita Malfatti Gravadora: Uma Recuperação que como o nome indica, só pode realizar-se graças a um projeto de restauração de antigas matrizes doadas ao Instituto da Universidade de São Paulo, em 1989, pela família da artista.
Desse projeto, participaram a pesquisadora Ana Paula Felicíssimo e um grupo de consultores e pesquisadores da obra de Anita Malfatti, orientados pela professora Marta Rossetti Batista, além de profissionais da área de gravação e de restauração como Carlos Martins , do Museu Castro Maya.
As matrizes, são parte do lote doado ao IEB, no centenário de nascimento de Anita ( 1889 -1964) e inclui , entre vários objetos, o arquivo pessoal da artista além de cadernos de desenho onde ela fazia estudos para trabalhos posteriores.. As matrizes teriam sido descobertas pela familia após a morte de Anita e se encontravam, segundo Ana Paula, em péssimo estado de conservação: “Algumas imagens estavam irreconhecíveis”, afirmou a pesquisadora.

Respeito aos traços originais
Apesar disso, o critério adotado foi promover uma higienização completa das placas sem, contudo, alterar os traços originais. “Quem sabe um dia, disse Marta Rossetti, teremos técnicas mais avançadas que nos permitam remover manchas sem remover os traços criados pela artista”. Foram trabalhadas 22 placas produzidas em cobre, zinco, latão e alumínio.
Na segunda etapa do processo de recuperação foi feita a impressão documental póstuma das matrizes que permitiu, através de estudos comparativos e pesquisas em arquivos, a identificação das imagens. Os trabalhos recuperados foram produzidos pela artista, segundo os pesquisadores, na Alemanha, nos Estados Unidos - quando Anita Malfatti lá esteve, e também no Brasil. Algumas são conhecidas do grande público, outras foram identificadas através de fotografias, e a maioria, como bem explica Ana Paula, revelam imagens até então desconhecidas.
O Colega, uma das gravuras mais antigas, feitas no período que ela esteve na Alemanha de 1911/1913; as gravuras expostas em 1917/1918 e 1922, e que, provavelmente, estariam relegadas ao esquecimento não fosse esse trabalho, podem ser agora conhecidas por admiradores da artista e pesquisadores de arte.
As gravuras foram impressas por Rosa Esteves e emolduradas pela equipe museográfica do IEB. Muitas ainda apresentam as marcas do tempo, alterações e manchas, uma vez que as matrizes não sofreram um processo de restauração tradicional, justamente para conservar o máximo possível a originalidade. Anita fez todas as gravuras em metal e as técnicas utilizadas foram diversificadas: a artista utilizou ponta-seca que permite um desenho com detalhes minuciosos; a água-forte, que combina traços com manchas produzidas pelos ácidos, e água-tinta, que é uma combinação de ácidos com tinta verniz de proteção e que permite a obtenção de meios-tons, como a aquarela.
Traços modernistas
Temas como moça com laço no cabelo, montanhas, árvores sem folhas, barcos, passeio, mostram traços que se confundem com as manchas deixadas no metal. Manchas que criam uma nova atmosfera, mas que não impedem que se reconheçam os traços vigorosos de uma grande artista. Para Marta Rosetti Batista, orientadora do projeto, as gravuras de Anita constituem a primeira produção que se tem notícia de gravuras modernas executadas por um artista brasileiro. Daí a sua importância histórica.
A artista já ensaiava nos anos 10, os primeiros passos do que seriam seus trabalhos modernistas dos anos posteriores. Seus traços mais inovadores são reconhecidos, principalmente, nas produções feitas nos Estados Unidos, explica Marta Rossetti, durante a sua permanência de 1915 a 1916, quando estudou na Art Students League. São dessa fase, trabalhos que registram a interpretação da artista e não a simples cópia, e que buscam a liberdade de composição e proximidade com os traços expressionistas. Gravuras como “O Barco”, “Paisagens com Coqueiros”, são exemplos disso. Mesmo na fase de estudos em Berlim, de 1911 a 1913, a artista já buscava a liberdade de expressão e o uso de técnicas diferenciadas.
Marta Rossetti vem desenvolvendo há muitos anos pesquisa sobre a vida e obra de Anita Malfati - até o final do ano deve lançar uma publicação de dois volumes sobre a artista-, mas acredita que ainda há muito para se pesquisar sobre a sua fase de gravuras, por exemplo: quais teriam sido seus mestres fora do Brasil. Informações essas, que responderiam muitas das questões pendentes sobre a trajetória da artista.
O crítico de arte, José Roberto Teixeira Leite, já em 1966 reconhecia em seu ensaio - De Goeldi ao Abstracionism -,publicado no livro Gravura Brasileira( ver link), que Anita Malfatti, antes ainda de Goeldi, considerado o pioneiro, já fazia gravura dentro de uma concepção mais contemporânea do gênero.
(MN)
Imagens concedidas pelo IEB - Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo
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