Aprender com Livio
era compartilhar a sua arte
Ismênia Coaracy
A artista paulista Ismênia Coaracy (1918), mora bem próximo ao Instituto Tomie Ohtake, mas não foi esse o motivo principal que a teria levado a ver por três vezes consecutivas a mostra Livio Abramo, Sempre. Em nenhuma das vezes, a artista deixou de emocionar-se, reconhecendo em cada um dos trabalhos expostos, os traços vigorosos do velho mestre da Escola de Artesanato do Museu de Arte Moderna, freqüentada por ela em 1953.
Ismênia foi uma das alunas de Livio Abramo e apesar de não ter se dedicado exclusivamente à gravura, levou para a pintura, os ensinamentos e preocupações com a harmonia , equilíbrio e expressividade na composição de seus trabalhos.
. A gravura como parte da
. construção individual
A artista Ismênia Coaracy, 86 anos e quase 60 de atividade artística, pertenceu a uma brava geração de artistas paulistas que trilhou, sem temor, novos e íngremes caminhos na construção de sua própria arte.
Começou no final da década de 40 com olhos voltados para as paisagens, montanhas e casinhas românticas. Amarrava o cavalete às costas, fazia o lanche dos filhos, e com eles no colo pegava ônibus – no Largo da Batata, em Pinheiros, atravessando a cidade para pintar campos e pastagens, lá para os lados do Canindé, da Freguesia do Ó. Às vezes essa atividade era realizada junto com os parceiros do grupo Guanabara, entre eles, os irmãos Ianelli, Alzira e Armando Pecorari, Fukuschima, Takaoka, Mabe e outros, em chácaras e sítios próximos a São Paulo. Nos anos seguintes, rompe com a figura e mergulha na abstração como possibilidade de expressão mais livre. No final da década de 50, inicia o retorno à figuração, movimento denominado de Nova Figuração, através do qual Ismênia se firmaria como artista plástica, com independência e maturidade, alinhando-se à construção de uma nova estética de aproximação da arte com a realidade.
Esse processo se deu lentamente, assim como para muitos de sua geração e foi enriquecido com novas e vigorosas experimentações em outros campos da arte. É dessa época a sua convivência com a gravura e o contato amigo e fraterno que manteve com Livio Abramo na Escola de Artesanato do MAM. “Aprender com Livio era compartilhar a sua arte, não somente a sua técnica”, diz Ismênia. As aulas de gravura eram intercaladas com história da arte, dadas por Wolfgang Pfeiffer e por visitas às exposições, principalmente no Museu de Arte Moderna, que naquela época ficava próximo à escolinha.
A artista não trabalhou muito tempo com a gravura e mesmo durante o curso nunca parou de pintar. “Acho que a gravura impõe mais limites ao artista. Limites que são impostos pela própria natureza da madeira e pelos instrumentos”. Ismênia fez gravuras em linóleo, mas trabalhou mais na madeira, "que não é fria como o metal", afirma. “Com a madeira, continua, você domina o processo de produção, do começo ao fim, o que já não ocorre com o metal, continua, onde os ácidos e vernizes atuam com certa independência tornando o resultado imprevisível. Você nunca sabe o que vai sair. Ácidos têm vida própria, não precisam muito do artista”, conclui.
Na pintura...figurativa,
na gravura... geométrica.
Para Ismênia, os traços geométricos nunca foram uma opção de estilo: “Era uma forma de exercício preliminar das ferramentas na madeira. Livio Abramo queria que a gente conhecesse bem o material com os quais teríamos que trabalhar: os buris, as goivas, as facas, o tipo de madeira, as tintas". Continua: "essa era um das primeiras lições : dominar o processo da gravura, da escolha da madeira, do talho à impressão, saber das possibilidades e recursos dos materiais”.

Impossível não sentir a mão de Livio Abramo na produção da artista-aprendiz ( imagem). Tem muito dos caminhos percorridos pelo mestre, mas tem também as marcas das experimentações da artista . Em várias gravuras Ismênia interfere na matriz depois de impressa: ocupa espaços vazios, redireciona cortes já feitos, buscando uma resignificação da criação original.
Ismênia Coaracy utilizaria, anos mais tarde, a produção de gravuras feitas na época da “escolinha”, para compor as suas fotomontagens, outra de suas experimentações do final dos anos 50 para os 60.
Se para ela a fotomontagem representou um exercício de criatividade e imaginação, antes disso, a gravura levou-a a percorrer o caminho artesanal e organizado do gesto construído.
Quando ela fala em expressão construída para explicar seus trabalhos posteriores na pintura, ela está relembrando, muito provavelmente, a herança deixada pelo saudoso mestre das gravuras.(MN)
Imagens do acervo da artista Ismênia Coaracy
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