Arte e educação:
atividades inseparáveis
A historiadora Ilsa Kawall defende no trabalho de pesquisa que realizou na Universidade de São Paulo sobre Livio Abramo, em 1983, que para se compreender a importância do reconhecido gravador na formação de inúmeros artistas brasileiros é necessário refletir sobre suas atividades como educador: inicialmente, na Escola de Artesanato do Museu de Arte Moderna de São Paulo, de 1953 até 1962; no Estúdio Gravura criado em 1960, e a partir de 1962, em Assunção, no Paraguai, para onde se dirigiu, atendendo a convite da Missão Cultural Brasil-Paraguai.
Livio assumiu o curso de Gravura da Escola de Artesanato do MAM , localizada na Praça da Consolação – hoje Praça Roosevelt - ao lado de outros profissionais das áreas de Cerâmica e Artes Gráficas, Desenho e História da Arte, cursos também mantidos pela escola. As instalações eram simples, afirma Ilsa Kawall, mas havia o essencial. Os alunos participavam das aulas e frequentemente saiam juntos para ver exposições no Museu de Arte Moderna, localizado na época na rua 7 de Abril. Funcionava como um centro cultural, conforme observa a pesquisadora, onde o trabalho artesanal e artístico se somavam às atividades culturais produzindo um ambiente estimulante .Os alunos recebiam além de aulas práticas, conhecimento sobre a História da Arte, ministradas por Wolfgang Pfeiffer.
Foram alunos de Livio Abramo, Ismênia Coaracy
( ler matéria), Betty Richard, Dorothy Bastos, Savério Castellano, Antonio Henrique Amaral, Braz Dias, José Cláudio, Maria Bonomi, e a própria Ilza Kawall, entre outros. Alguns permaneceram como gravadores, outros foram para áreas diferentes.
A experiência na escolinha, como era comumente chamada, durou até 1959, quando o Museu de Arte Moderna foi transferido para o Parque do Ibirapuera, e os alunos e professores negaram-se a aceitar a transferência da Escola de Artesanato para aquele mesmo local. Assim sendo, a diretoria da escola suspendeu as atividades da Escolinha e demitiu seus dois principais professores : Livio e Wolfgang Pfeiffer .
Na década de 60 o Estúdio Gravura
Em 1960, Livio criou o Estúdio Gravura juntamente com Maria Bonomi. Nessa fase, conforme cita Ilsa Kawall, o estúdio propunha um trabalho mais completo em torno do ensino da gravura, não mais somente em madeira, mas também em metal, atualizando métodos e técnicas dessa linguagem. O objetivo do estúdio, segundo a pesquisadora, era " promover a divulgação e a penetração dos produtos da arte da gravura sob a forma de estampas evocativas, lúdicas e artísticas, etc., no interesse de atingir um público mais amplo”, não só para artistas .
Participam do Estúdio nomes como Moacyr Rocha, Zita, Miriam Chiaverini, Anésia Pacheco Chaves, Sheila Braningan, Clélia Cotrim , Camila Cerqueira César e outros.
Livio Abramo aglutinou em torno do estúdio novos professores e colaboradores como forma de solidificar seu projeto. Era um professor exigente, orientava os alunos para o conhecimento dos materiais a serem trabalhados e para a discussão de todo o processo, até à impressão, que era feita em papel de arroz.
Levava convidados para conversar com alunos, passava slides, dava aulas de história da arte, enfim, seguia com seu projeto de criar um grande centro de reflexão e prática da arteda gravura. O projeto dura pouco tempo, de 1960 a 1962 por insuficiência de recursos financeiros para pagar, segundo o próprio Livio afirma - no documentário Livio Abramo, Sempre -, as despesas mais elementares do estúdio, como aluguel, luz,et No ano seguinte, Livio já estaria embarcando de mala e cuia para o Paraguai e lá ficaria até a sua morte ocorrida em 1992.
Para o artista Nuno Ramos, que teve a oportunidade de conhecer os locais de convivência de Livio no Paragay, a atuação do artista brasileiro naquele país pode-se comparar a de Mario de Andrade no Brasil: pelo seu espírito de pesquisa e de revalorização de objetos, lugares e conceitos.Opiniões semelhantes são compartilhadas por artistas paraguaios, entre eles, Olga Blinder e pelo historiador de arte Ticio Escobar, em depoimento ao documentário Livio Abramo, Sempre.
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Ilsa Kawall
artista, pesquisadora e
curadora

Ilsa Kawall Leal Ferreira
(1932) é autora da tese Livio Abramo, defendida na Escola de Comunicações da Universidade de São Paulo, em 1983, sob orientação do professor Wolfgang Pfeiffer. Foi gravadora, aluna de Livio Abramo na “escolinha” do MAM, e participou de inúmeros salões nos anos 50 e 60 em São Paulo e Rio de Janeiro, mas destacou-se por ter promovido nas décadas seguintes,uma série de atividades de incentivo à gravura. |
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Foi diretora do Centro Cultural São Paulo e curadora do Museu de Arte Moderna de São Paulo.
Em 1983, a historiadora reuniu em São Paulo, trabalhos de diversos artistas -gravadores que produziram ilustrações para livros. Destacando-se as ilustrações de Livio Abramo para o livro Pelo Sertão, de Afonso Arinos: as xilos de Lasar Segall para o álbum Mangue: as serigrafias de Di Cavalcanti
para Morte de Quincas Berro D´Àgua de Jorge Amado: águas-fortes de Portinari para Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis; linóleo de Carlos Scliar para Les Chemins de La Faim,de Jorge Amado; litografia de João Câmara Filho para o livro Seis Cantos do Paraíso, de Dante Alighieri;
água-forte de Tomás Santa Rosa para Espumas Flutuantes, de Castro Alves e outros.
Hoje, com quase 80 anos e afastada das atividades, Ilsa Kawall carrega ao mesmo tempo o orgulho de ter sido autora da primeira tese acadêmica defendida sobre Livio Abramo e a frustração de nunca ter conseguido publicá-la.
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