OS ANTIGOS COMPARAVAM O
MOVIMENTO DO UNIVERSO A UMA DANÇA

El bailongo s/d
A dança, pois, desempenhou uma função cósmica, estabelecendo uma relação entre o céu e a terra e representava a harmonia universal. A ilustração mais completa do símbolo é o deus hindu Shiva, o dançarino cósmico cujas evoluções despertam as energias dormentes para que elas dêem forma ao mundo.
Encarnação e manifestação da energia eterna, da força cósmica, geradora e também destrutiva, Shiva dá ritmo ao tempo. É o princípio da criação pela percussão do tambor que tem na mão direita. Na Idade Média, mesmo as danças populares eram calcadas no movimento dos planetas. Na China antiga, a dança associava-se à embriaguez extática: dançava-se sem trégua em turbilhão para se preparar para o êxtase quando dos festins oferecidos aos ancestrais.
Oração e apelo, a dança sagrada pode ser um grito de alegria. Porém, é antes de tudo uma busca de libertaçãono êxtase, uma tentativa de identificação com o Uno: as dionisíacas e asbacanais celebravam o culto de Dionisio (Baco), ligado à Água, seiva e origem primeira de toda vegetação, como um hino à vida.
Enfim, todas estas danças são a repetição ritual do ciclo do tempo e do movimento em torno do eixo do mundo.
As casas em que os escravos apresentavam suas danças, OS TANGOS, com a permissão de seus amos, eram fechadas ao público em geral na Montevidéu antiga. E era ao som do “tambor” que eles celebravam suas festividades e cerimônias. O tambor conjugava a necessidade de expressão e liberdade de cultura, subjugada pelo domínio espanhol. O ritmo do candombe é dado pela combinação de três tipos de tambor: “tamborpiano”, “tambor chico” e “tambor repique”.
CANDOMBE ... TANGO- MILONGA ... TANGO
No início do século XIX, há uma preocupação séria por parte das autoridades com a realização dos candombes, denominados indistintamente “tambu” ou “tango”. ELES PROÍBEM A DANÇA castigando duramente seus cultores por considerÁ-LA um atentado público à moral. Em 1808, os moradores vizinhos de Montevidéu solicitaram ao governador Francisco Javier Elio que reprimisse mais severamente os candombes e proibisse os “tangos” dos negros (CARÁMBULA, Ruben. El Candombe).
Com a abolição da escravatura, o candombe passou a integrar a paisagem cultural de Montevidéu e contribuiu nos anos de 1860-1870 na formação da milonga, do tango-milonga e, por extensão, do tango.
NA SÉRIE OS PAMPAS,
EXPRESSOU UM MUNDO PRIMIVITO

Quitanderas (1925-26) - Museu M. de Bellas Artes Juan Manuel Blanes - Uruguai
Figari também pintou cenas íntimas de ‘MúsicaemFamília’, ‘Arrumando a Noiva’ e outras, e não deixou de lado as paisagens totalmente despovoadas – uma solidão que ‘No Pampa’, ele expressa e acentua pela conjunção figurativa de um cavalo, uma árvore e vários pássaros.
Inseparável de seu caráter de série, o procedimento de composição tem por base o desenho deliberadamente deformado, apto a expressar todo esse mundo primitivo. Em suas pinturas, cores quentes sobrepõem-se às cores frias, sem cobri-las totalmente e incontáveis matizes não deixam um único ponto vazio na tela.
Contudo, mesmo nas paisagens mais desertas, sua preocupação constante é com o homem, “que ele sempre caracteriza, mesmo quando não o retrata explicitamente” (Gênios da Pintura, p. 92)
“Suas obras, como muitos de seus escritos, ironizam o culto à solenidade e ao ‘espiritu de capilla’ sem deixar de lado o humor e a malandragem. Podemos encontrar no artista uma dolorosa consciência do fracasso do intelectualismo moderno e da mentalidade de que é produto, que o leva a escrever: ‘o absurdo da arbitrariedade reina em todos os valores e hierarquias neste terremoto universal que faz dançar as ideologias circulantes, como se se tratasse de marionetes...’ “ (CASTILLO, Jorge. Catálogo da XXIII BienalInternacional de São Paulo)
Pedro Figari morreu aos 77 anos, em Montevidéu, sua cidade natal no dia 24 de junho de 1938.
Referências bibliográficas
BERTOLI, Mariza. A sedução dos contrários na arte da América Latina: através da análise comparada da produçãoartística de Francisco Brennand e Gilvan Samico (Brasil), de Oswaldo Viteri (Equador) e de Gustavo Nackle (Uruguai).São Paulo: 2003. Tese (doutorado) - USP - PROLAM. São Paulo, 2003.
CASTILLO, Jorge. A Formação de umEstilo. Disponível em: http://www1.uol.com.br/bienal/23bienal/especial/pefi.htm
GALEANO, Eduardo. O livro dos abraços. trad. Eric Nepomuceno. Porto Alegre: L&PM, 2005.
Margareth Fiorini. JULIEN, Nadia. Dicionário dos Símbolos. trad. e rev. Luiz Roberto Seabra Malta, São Paulo: Rideel, 1993, pp. 127-130.
Pedro Figari – biografias. Disponível em: http://www.escueladigital.com.uy/biografias/p_figari.htm
Pedro Figari. Disponível em: http://www.epdlp.com.pintor.php?id=2845
Pedro Figari. Disponível em http://www.rau.edu.uy/uruguay/cultura/figati.htm
Pedro Figari. Disponível em: http://www.artemercosur.org.uy/artistas/figari/index.html
Pedro Figari. Disponível em: http://www.candombe.com/hyml_port/figari.html
What is Candombe? Disponível em: http://www.candombe.com/html_sp/whatis.html.
ColeçãoGênios da Pintura (Pranchas), 1972, pp. 91-92.
Imagem da página principal - Candombe Federal s/d Coleção Particular
Vera Lucia Simão é graduada em Filosofia pela Universidade SãoJudas Tadeu; pós-graduada emHistória da Arte pela mesma universidade,e emEducação pela Puc- São Paulo, com curso de História, Sociedade e Cultura. É mestranda do Programa de Pós-graduação em Estética e História da Arte da Universidade de São Paulo . A presentepesquisa fez parte da disciplina Crítica e Produção Artística na América Latina, 2006.
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