Ao contrário da grande maioria dos artistas, que começam a pintar ainda jovens, o uruguaio Pedro Figari ( 1861-1938) dedicou-se, exclusivamente, à arte somente aos 60 anos, deixando para trás uma carreira pública de sucesso.
Suas pinturas valorizavam os costumes e as festas populares, especialmente, o candombe – palavra variante de candomblé- que no Uruguai era o nome dado às reuniões semanais dos descendentes de escravos e à dança de origem africana.
Pedro Figari:
a pintura como expressão popular
Vera Lucia Simão

Candombe Federal s/d
Filho de pais italianos, o uruguaio Pedro Figari nasceu a 29 de junho de 1861, em Montevidéu. Formou-se em Direito em 1885, e no ano seguinte foi nomeado defensor público. Famoso por sua defesa de pessoas injustamente acusadas, Figari elegeu-se deputado em 1896. Na Câmara Federal, trabalhou pela abolição da pena de morte e apresentou o projeto da criação da Escola de Belas Artes. Em 1910, passou a integrar a diretoria da Escola Nacional de Artes e Ofícios e dois anos depois publicou o ensaio filosófico “Artes, Estética e Ideal”. Em 1915, pôde reformular a escola segundo um projeto de sua autoria. Renunciou então à carreira jurídica, para só aceitar encargos ligados à arte.
Pedro Figari pintava muito pouco, raramente. Só a partir de 1919 suas tendências artísticas tornaram-se claras e decidiu buscar o apoio do ambiente artístico uruguaio. Figari preocupava-se em documentar sua terra e sua gente. Liderava esta tendência o pintor José Cuneo, que estudara na Europa e era ligado a Gauguin e ao grupo simbolista e místico dos Nabis. Assim, o artista Figari, participante do grupo de Cuneo, adotou uma abordagem romântica da realidade próxima do simbolismo e do expressionismo.

La pampa (1924)
“A minha pintura não é uma forma de pintar, mas uma forma de ver, pensar e sentir. Estou surpreso por ter podido pintar sensações – não coisas – mesmo antes de estar preparado em termos pictóricos”. (FIGARI in CASTILLO, Jorge, p. 1)
A partir de 1920, o pintor começa a desenvolver um de seus procedimentos peculiares: o da série, em que os quadros representavam quase que uma continuidade temporal. Suas pinturas mostram aspectos diversos de cenas e costumes da vida cotidiana de Montevidéu e do restante do país, pintados de memória uma vez que ele se exilou em Buenos Aires . Dentre essas séries, destacam-se as que representam cenas da vida da comunidade negra descendente de escravos. São cenas de atividades coletivas como festas, batizados, casamentos.

Candombe s/d - Coleção Particular
“Integrado nessa temática regionalista, o mundopictórico de Figari é povoado pelas danças negras queeleviranosarredores de Montevidéu (presentesem ‘Candombe’, porexemplo) e pelas festaspopulares (comoem ‘Pericón no Pátio da Estância’).
DANÇA COMO HERANÇA
CULTURAL DA ÁFRICA
Candombe é um ritmo proveniente da África e tem sido parte importante da cultura uruguaia, por mais de duzentos anos. Este ritmo chegou ao Uruguai graças aos negros escravos e ainda hoje é encontrado nas ruas, especialmente nos carnavais. Para compreender como este ritmo enraizou-se na cultura uruguaia é necessário voltar ao início da história africana e sul-americana.
Montevidéu, capital do Uruguai, foi fundada pelos espanhóis em 1724. Em 1750, começou a entrada de escravos africanos, sendo que, em princípios do século XIX, já excedia os 50%. Esta população não era homogênea, mas oriunda de uma África multiétnica e culturalmente muito variada, sendo a maioria de origem Banto.
A área Banto constituía uma vasta região cultural, um mosaico étnico complexo – aproximadamente 450 grupos – e uma diversidade de idiomas com cerca de 20 grupos linguísticos e 70 dialetos.
Biafra estaba muerta, nadie alli quiso llegar
Porunosnegrosque muerem, a quién le puede importar?,
Biafra, estás desierta, tustambores ya no stán
Asi cantaba tugente mientras pudieron cantar:
Ne-ia ne-ia cumaia-nagatá
Ne-ia ne-ia cumaia-nagatá
(Do Candombe “Biafra” de Ruben Rada, na introdução do livro “OsTambores do Candombe” de Luis Ferreira)
O candombe, portanto, é a sobrevivência da cultura ancestral africana trazido pelos negros chegados da região do Banto até o Rio da Prata. O termo é generalizado a todos os bailes de negros, sinônimo de dança negra, evocação do ritual da raça. Seu espírito musical traduz os tormentos dos escravos desafortunados, que, de súbito, viram-se transplantados para a América do Sul, para serem vendidos e submetidos a duras fainas. Eram almas sofridas, guardando incuráveis nostalgias do solo nativo. Na época colonial, os africanos recém-chegados chamavam “tango” a seus tambores. Esta palavra também aplicava-se ao lugar onde realizavam suas danças e às próprias danças. Assim, a palavra “tango” designava o lugar, o instrumento e, por extensão o baile dos negros.

Alucinação, Pedro Figari - 1923
Em Alucinação, o casal de negros, no frenesi da dança, recorda os rituais escravos. Com a variedade das roupas extravagantes, Figari cria uma rica sinfonia de cores. As mãos dos personagens, transformadas em manchas, sugerem o movimento. “Conversam com as mãos” escreve Eduardo Galeano no O Livro dos Abraços.
“Tinham as mãos amarradas, ou algemadas, e ainda assim os dedos dançavam, voavam, desenhavam palavras. (...) E embora fosse proibido falar, eles conversavam com as mãos. Quando é verdadeira, quando nasce da necessidade de dizer, a voz humana não encontra quem a detenha. Se lhe negam a boca, ela fala pelas mãos, ou pelos olhos, ou pelos poros, ou por onde for. Porque todos, todos, temos algo a dizer aos outros, alguma coisa, alguma palavra que merece ser celebrada ou perdoada pelos demais”.
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