Coletiva à imprensa confirma os principais desafios da 27ª Bienal:
refletir sobre as relações entre arte e vida; entre vivência coletiva e conflitos de interesses; além de promover
a inclusão social no universo da arte contemporânea
Margarida Nepomuceno

Narda Alvarado ," Bad Ideas"
Tudo indica que esta será uma Bienal diferente.
Desde a escolha da atual curadora geral desta edição, Lisette Lagnado, feita através de um projeto eleito por um conselho ligado à Fundação Bienal, até o programa educativo - voltado para a inclusão de populações ao universo da arte contemporânea-. O projeto geral da Bienal é ambicioso. Passou por uma reformulação quase total dos parâmetros sob os quais as edições anteriores vinham acontecendo.Apesar do entusiasmo, a equipe de curadores e o presidente da Fundação Bienal, demonstraram, em alguns momentos, uns mais que outros, sinais de cansaço e irritabilidade ao receberem a imprensa nesta quarta-feira (4/10) para as considerações iniciais do evento. Lisette Lagnado disse já ter explicado, exaustivamente, sobre a queda das representações nacionais, não se mostrando disposta a dar mais detalhes, e o presidente da Fundação Bienal, Manoel Francisco Pires da Costa, irritou-se com um jornalista que o acusou de dificultar a participação de artistas na Bienal.

Jaroslaw
Com exceção da espanhola Rosa Martinez, cuja ausência foi justificada, esteve presente a equipe de curadores: Lisette Lagnado, Cristina Freire, Adriano Pedrosa, José Roca e Jochen Voltz . Participaram também Denise Grinspum, responsável pelo programa educativo da Bienal, feito em parceria com a Faap, e Marta Bógea, arquiteta responsavel pela expografia do evento.
Inovações
No primeiro balanço público feito pelos organizadores, o enfoque foi dado às inovações que nortearam os primeiros passos da equipe curatorial. São elas: a discussão e escolha de um conceito que permeou todo o processo seletivo de artistas; o prolongamento do período tradicionalmente destinado às Bienais normalmente de dois meses e meio, com seminários internacionais e as residências artísticas realizados desde o início do ano, além da Quinzena de filmes que integra o projeto conceitual da mostra. Tais mudanças, compreendem também as publicações, de variados tipos e preços, que darão suporte às visitas bem como o Programa Educativo que visa ampliar a composição do público visitante.Ampliar com qualidade, através de trabalhos com as escolas e centros educacionais, segundo seus organizadores.
Inspiração: Barthes e Oiticica

Helio Melo
O conceito da Bienal “Como viver junto” foi inspirado em Roland Barthes( 1915-1980), pensador francês, e propõe uma reflexão sobre a vida coletiva, as fronteiras culturais, as dificuldades de compartilhar os mesmos espaços permeados pelos conflitos de interesses. Outro eixo conceitual da Bienal diz respeito ao “Programa Ambiental” de Hélio Oiticica que visa trazer, através de textos e de seus trabalhos, o espectador para dentro da obra. Para Lisette Lagnado, a Bienal está situada na intersecção de duas linhas de pensamento que Helio Oiticica
(1937-1980) desenvolveu: o sentido da ‘construção’, que está na base da experimentação neoconcreta, e o ‘adeus à estética’ .
Na exposição dos artistas, essas duas linhas se traduzem em “Projetos Construtivos” e “Programas para a vida”.
As tradicionais representações nacionais, sistema adotado deste a fundação da Bienal de São Paulo, foram substituídas por seleções criteriosas com base nesses conceitos. Adriano Pedrosa, um dos curadores, afirmou que a equipe de curadores viajou por 29 países e que trabalhou junto a outros curadores, de outros países, buscando artistas que tivessem como tema central questões que revelassem ou que refletissem as dificuldades e necessidades do compartilhamento, da vivência social e política, da reconstrução e dos intercâmbios em várias esferas da sociedade.
Aprendendo a viver junto
Selecionar junto, explica Lagnado, foi um exercício conceitual dos curadores e, com isto, a mostra não tem uma homegeneidade
estética, mas “diferentes vibrações, vindas da personalidade de cada curador. Isto é um ganho, prossegue, fazer uma Bienal com artistas imprevisíveis reunidos juntos”.
Apesar da inspiração em Helio Oiticica, a Bienal não exibe nenhuma de suas obras mas procura valorizar suas teorias através das obras expostas dos artistas. A curadoria oferece um contra-ponto ao ‘viver junto’ que é o “Como Viver Só”, filme que será exibido no cine BomBril, como parte da Quinzena de filmes.

Ola Pehrson ( detalhe)
Para Cristina Freire, uma das co-curadoras, a configuração da atual Bienal representa uma grande plataforma de transformação que servirá para as próximas edições. Para ela, o curador deixou de ser o todo poderoso e outras vozes passaram a ser ouvidas : “ Trago o testemunho do processo que resultou nessa bienal, das visitas aos locais de produção dos artistas, saindo do esperado e das rotas previsíveis; dos novos espaços; das articulações; das novas possibilidades”, afirmou.
Igualdade de tratamento
Em relação ao sistema de representaçao nacional, abolido na presente edição, o presidente da Bienal Manoel Francisco Pires da Costa afirmou que a medida foi recebida com muita simpatia pelos países representados nesta Bienal, uma vez que significou uma diminuição de custos para esses mesmos países. O que acontecia, segundo Pedrosa, é que no antigo sistema, determinados artistas tinham uma cobertura financeira forte de seus países e apresentavam-se em condições muito vantajosas em relação a outros que não tinham a mesma condição financeira. Dessa forma, com a queda das representações, o tratamento aos artistas foi democratizado. As condições foram as mesmas para todos.
Todas essas modificações, entretanto, foram resultado de muitas negociações entre artistas e curadoria, às vezes difíceis.

Claudia Andujar
Residência o olhar estrangeiro no Brasil
Dois núcleos importantes são também destaque dessa Bienal. Os artistas que foram convidados a produzir seus trabalhos através de residências artísticas no Acre, Pernambuco e São Paulo como Alberto Baraya, Armando Andrade-Tudela, Florian Pumhöl, Francesco Jodice, Lara Almarcegui, Marjetica Potrc, Meschac Gaba, Minerva Cuevas, Shimabuku e Susan Turcot. A idéia com as residências artisticas foi trazer para o local da Bienal, o resultado do trabalho produzido por esses artistas ao longo de suas experiências no Brasil.

Ola Pehrson ( detalhe)
Meta do programa educatico:
atingir os excluídos
A proposta do projeto educativo desta Bienal é ampliar a composição do público visitante. Na última Bienal, a maior parte dos visitantes ( 75%), segundo levantamento feito pela Bienal, situava-se entre as classes A e B , não incluindo estudantes da rede pública. Ou seja, o público das bienais é o mesmo que frequenta museus e exposições com regularidade. O projeto tentará incorporar os setores da periferia de São Paulo e visitantes de baixa renda, excluídos de qualquer assistência cultural, através de um projeto educativo de arte, que envolverá a participação da população nos centros educacionais da Secretaria Municipal da Cultura, os Ceus.
Além disso, foram implementados um trabalho com a monitoria, formada especialmente para esse evento, além de um cuidadoso investimento cultural com professores da rede pública e privada, com o intuito de preparar estudantes antes da visitação à Bienal. Cerca de 800 professores já receberam, através de cursos de treinamento e material didático, as informações e sugestões para o aprendizado dos estudantes. Para o treinamento de monitores, feito com a parceria da Fundação Armando Álvares Penteado, foram ministradas 80 horas/aula, e de 200 inscritos, 121 monitores selecionados farão a intermediação entre público e trabalhos expostos. Alguns cuidados foram tomados, garante Denise Grinspum, para que o público tenha liberdade para fazer as suas próprias descobertas diante de um trabalho de arte.
O projeto educativo, segundo Denise, não visa o atendimento numérico nem tampouco ultrapassar a barreira de 1 milhão de visitantes, registrado na edição de 2004.
“Queremos, com essa experiência, afirma a educadora, conquistar novos frequentadores e apreciadores de arte, que vivenciem as oportunidades oferecidas pela Bienal , com uma qualidade capaz de transformá-la ( essa experiência) em algo mais definitivo para suas vidas”.
Acompanhe no site Cores Primárias as notícias e discussões sobre essa Bienal.
Imagens/ Divulgação
Serviço
27ª Bienal Internacional de São Paulo
“Como viver junto”
Parque do Ibirapuera.
Pavilhão da Bienal
Portal 03
Abertura ao público: 7 de outubro ( domingo)
Horários: terça a sexta das 9h às 21 h.
sabado, domingo e feriados: das 10h às 22h
(entrada fecha 1 hora antes)
Entrada gratuita
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