Em tempo de Bienal, especialmente esta, a 27ª edição, que trabalha com conceitos e não com representações culturais específicas, são sempre bem vindos
estudos sobre a crítica de arte.

Ismênia Coaracy - 1968 - MAM/SP
Crítica da crítica:
uma auto-reflexão necessária
Pedro Augusto Vassili
Crítica e modernidade é a nova publicação da ABCA (Associação Brasileira dos Críticos de Arte), parte de uma coleção que já trouxe ao público o relançamento de Marginalidade da PinturaModerna, clássico da crítica modernista de Sergio Milliet, e o volume Lugares da Crítica de Arte, coletânea de artigos de pensadores nacionais e internacionais, em um projeto que visa pensar as estruturas e os dilemas do ato crítico, não só em dimensão histórica, mas também auto-reflexiva, pois afinal se trata da associação dos profissionais da crítica. Longe dos conhecidos textos pró-forma que enchem todas as publicações especializadas nestes tempos em que pensar é "produzir", os debates propostos pelos livros merecem alguma atenção mais detida.
Em ano de bienal, evento sempre polêmico, pôr em foco os mecanismos legitimadores, os aportes prospectivos e as criações simbólicas próprias ao discurso, é bem-vindo. Talvez, levada ao excesso, a "crítica da crítica" faça retornar ao centro do debate artístico questões relativas às artes e não ao sistema político em torno delas, tópica dominante nos comentários jornalísticos à última mostra do Ibirapuera.Se não mudarmos esta perspectiva, a melhor resposta pelo "lugar da crítica" no mundo das bienais será mesmo a de Otília Arantes: "da história controvertida e acidentada das Bienais de São Paulo, talvez se possa dizer mais uma vez que a verdade está no fim: na era das curadorias empresariais"(1).
Se a coleção da ABCA pode ser um espaço para outras questões, isto não quer dizer que o mesmo estilo prosaico do jornalismo atual não se encontre nestes textos. Na maioria dos artigos de Crítica e modernidade não se retomam as dicotomias forjadas pelo discurso crítico da modernidade que balizaram muitos dos melhores textos de nossa tradição historiográfica, pautada pela teoria crítica frankfurtiana(2). Dessa proximidade anti-retórica, que não cede à tentação de tomar partidos ou de criar outros mitos, heroínas ou heróis, deste prosaísmo que anda colado aos rodapés dos jornais, às fontes, se ressentem alguns dos artigos: são competentes, mas por demais descritivos, cartográficos, como se cada palavra, qualquer metáfora pudesse trair o autor por trás da redação. Artigos escritos dentro da perspectiva de dar "uma contribuição" ao quadro geral, sem pretensão sintética ou analítica. Muitos autores retomam dissertações e teses tradicionais, publicadas ou não, a cujo primeiro trabalho devemos muito do mapeamento factual das artes brasileiras.
Mas, ainda assim, em artigos breves, o excesso de dados e citações parece incomodo, um pouco técnico demais. É deste mesmo prosaísmo, entretanto, que se nutrem os melhores artigos da coletânea, como o de Ana Paula Simioni, "Eternamente amadoras: artistas brasileiras sob o olhar da crítica". Aqui, cada palavra aparentemente neutra utilizada pelos críticos é virada ao avesso, explicitando projetos (inconscientes ou não) nas guirlandas retóricas da crítica dita "impressionista". A autora trata das artistas que, nos fins do século XIX, eram citadas em breves linhas nos catálogos. Análise pontual dos textos e de suas artimanhas para classificar essas mulheres, o artigo é um caso em que a crítica de gênero consegue escapar às suas próprias armadilhas, também elas retóricas, pois não se busca qualquer "outro" do modernismo, qualquer brecha suavemente aberta por onde se embrenhar com nova certeza feliz. As palavras são, antes de tudo, fascistas.
É essa mesma prospecção velada em cada palavra o que Annateresa Fabris, organizadora do livro, flagra nas críticas modernistas de Mário de Andrade em "Moderno, mas não brasileiro". Nos diálogos entre Mário e Segall, noções estéticas e políticas não se opõem, mas se complementam, devolvendo à sua situação histórica termos que, sem a devida análise, passam-se por conceitos únicos, tais como "expressionismo". Estes dois textos, pela própria aridez do método, acabam sendo mais radicais que muitos artigos sobre o papel do crítico, cujos passos seguem as sendas ainda possíveis abertas pela teoria crítica.
Notável, ainda, são alguns achados pontuais dos artigos, como por exemplo os levantamentos de Silvana Brunelli Zimmermann. Seu artigo "A crítica de arte e a escultura na modernidade brasileira" versa sobre a recepção à obra de um artista, Galileu Emendabilli, às vezes entendido como "moderno" – talvez tenha faltado um texto que se propusesse a ir mais fundo nesta nossa palavra-valise: "moderno". Se o texto elenca muitas questões, e, pela falta de espaço, não as contempla totalmente, o levantamento de "críticos menores" e suas constantes "românticas", bem como a aproximação aos "críticos maiores" e seus aportes emprestados de "revistas estrangeiras", desenham as vacilações do discurso "modernista". Também mostra as ambigüidades dos termos o artigo de Ursula Rosa da Silva sobre Ângelo Guido, artista e crítico radicado no Rio Grande do Sul, pois traz em eco a repercussão, a difusão, das idéias de modernismo. E não por se tratar de um crítico distante dos ditos "grandes centros" da cultura nacional, mas por mostrar as lentas acomodações dos temas e termos, hoje já canônicos.
Neste caminho de levantar críticos atuantes no cenário modernista e suas redes intelectuais vão vários outros artigos, como de Diana Wechsler, que faz um levantamento das formas de se pensar a arte moderna na Argentina. Aliás, outra característica da coleção e deste volume é a publicação de textos de críticos que versam sobre questões internacionais, em espanhol e italiano (o texto de Mário Perniola em Lugares da crítica de arte merece, sem dúvida, um destaque, por trazer interlocuções diversas para o debate). Em Crítica e modernidade, outros artigos sobre a crítica na Argentina completam o livro, espaço fecundo de novos diálogos ainda por se estabelecerem.
O volume é importante, sobretudo porque pressupõe outros livros que investiguem os vários campos de atuação do crítico, e a crítica na contemporaneidade. Esperamos que o ato de se fazer crítica da crítica, esboçado neste Crítica e modernidade, estenda-se ao próprio trabalho do curador, do crítico atual. Que a ausência quase incomoda de análises judicativas e metáforas ou a desconfiança dos projetos, claramente posta pelos autores, não seja ela mesma apenas uma retórica que cria um passado suspeito e ambíguo para espraiar-se em um presente pleno de conquistas. Se cada palavra esconde uma palavra, o abismo vale também para nossos discursos, para as nossas curadorias cuja legitimação serve à arte e aos empresários, como escreve Otília Arantes. E nesse espaço devastado pela reflexão, sem juízos a priori, talvez possamos reconstruir alguma arena para se discutir, novamente, não politicagem, mas algo como "artes".
1-Quarta capa do livro de Francisco Alambert e Polyana Canhetê, Bienais de São Paulo, da era do Museu à era dos curadores. São Paulo: Boitempo,2004.
2- Um artigo sobre o papel do crítico muito bem embasado na teoria crítica, foi publicado recentemente pela Revista ARS, de Sônia Salztein.

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