Oscar Pereira da Silva não queria ser moderno.Intitulava-se um pintor realista, nada mais . Criticava os artistas, inclusive a filha Helena, que buscavam novas formas de representação sem perceber, no entanto, que algumas de suas pinturas já estavam contaminadas pelas inovações
artísticas da Europa do final do século 19.

Moça com guarda-sol, s/d.C.P.
O outro Oscar Pereira
da Silva:
aquele que nem ele mesmo admitia existir
Margarida Nepomuceno
Até pouco tempo, boa parte dos pintores brasileiros ditos acadêmicos despertavam pouco interesse em um público acostumado a olhar a arte com os olhos do modernismo.
Grandes expressões do século 19, tais como Victor Meirelles, Weingartner, Eliseu Visconti, Almeida Junior, Belmiro de Almeida, Benedito Calixto,Rego Monteiro, entre outros, foram secundarizados pelos museus e pela critica do século 20, ficando sujeitos, esses artistas, a servirem de contra-exemplo da arte inovadora e de qualidade aparentemente indiscutível do modernismo.
Oscar Pereira da Silva foi um deles.
Até mesmo o historiador de arte Jorge Coli, defensor de uma revisão profunda da produção artística do século 19, confessa em seu livro que, quando adolescente, olhava os quadros de Pereira da Silva, e de outros de seu tempo, para aprender “ o que era pintura ruim”, tais eram os critérios e gostos “tirânicos” vigentes até algum tempo atrás.
Em ComoEstudar a ArteBrasileira do século XIX ?, a tirania de valores do modernismo a que o historiador se refere varreu do mapa “tudo aquilo que não parecia estar dentro dos parâmetros que esses modernos estabeleciam” . Essa atitude foi tão impositiva quanto o autoritarismo estético que o modernismo acreditava ter sido o pior dos pecados da Academia. Impositiva e desastrosa, uma vez que empurrou para debaixo dos tapetes dos museus verdadeiras obras-primas.
Revisão necessária
Felizmente, como aponta Coli em seu livro, a partir do final da década de 70 e início de 80, historiadores, museus, críticos e curadores têm se voltado para a revisão da produção artística dessa época . Em meio as principais razões, a de que as definições classificatórias só dificultam a compreensão da verdadeira importância da arte do século 19 .
Com esse espírito, o de fazer uma revisão histórica e estética da produção dessa época, particularmente dos artistas paulistas, a Pinacoteca do Estado desenvolve um programa de exposições temporárias. Junto com a Sociarte- Associação dos Amigos da Arte de São Paulo- e curadores ligados ao museu, já foram realizadas as mostras Mulheres Pintoras, Antonio Ferrigno e O Brasil de Renée Lefrevre e recentemente, a de Oscar Pereira da Silva, com curadoria de Ruth Sprung Tarasantchi.
Cerca de 100 obras, entre telas a óleo, aquarelas e desenhos mostram um Oscar Pereira diferente daquele que estamos acostumados a ver: o criador das monumentais telas históricas, como a Fundação de São Paulo, Bandeirantes a Caminho de Minas ou o Desembarque de Pedro Alvarez Cabral; ou ainda, o pintor de painéis alegóricos do foyer central do Teatro Municipal.
Atenta à diversidade dos gêneros produzidos pelo artista, a pesquisadora Ruth Sprung Tarasantchi, conseguiu reunir uma significativa mostra de suas pinturas, sobretudo de acervos particulares, compondo um cenário que convida o observador a uma revisão surpreendente do conjunto das obras do artista. Não poderiam faltar, evidente, as principais obras provenientes de museus e instituições públicas, especialmente do Museu Paulista (O Desembarque de Pedro Alvarez Cabral, entre outras) e da Pinacoteca do Estado, responsável pelo maior acervo da produção artística do século 19 de São Paulo.
A exposição foi acompanhada do lançamento do livro sobre a vida e obra de Pereira da Silva, de autoria da curadora Ruth Srung Tarasantchi, e foi resultado de anos de pesquisa. No livro, como na mostra, a autora reconstrói com detalhes a trajetória pessoal do artista, e descreve os diferentes gêneros e temáticas de sua obra. Analisa os modelos nus, as pinturas com temáticas orientais, as alegorias e temas mitológicos, as pinturas históricas, os retratos, as influências da fotografia, as paisagens, as naturezas-mortas e as cenas do cotidiano.
Queria pintar
como um europeu...e pintou
Oscar Pereira da Silva foi um dos pintores brasileiros que mais se beneficiaria com as premiações concedidas pelas Instituições artísticas da segunda metade do século 19. Antes de completar 20 anos, já cursando a Academia Imperial de Belas Artes no Rio de Janeiro, onde nasceu (1865), ganhou medalhas de ouro e menção honrosa por vários trabalhos. Com 22 anos, ganhou o Prêmio Viagem, instituído em 1844 por Félix Taunay, passando de 1887 a 1896 a estudar em ateliês de artistas em Paris.
Em 1916, já morando em São Paulo onde residiu até morrer (1939) ganhou outro prêmio como bolsista do Governo do Estado voltando a Paris para cursar a famosa Académie Julian, destino da maior parte de artistas contemporâneos. Casou-se com uma francesa de Bordeaux, Julie Saphores, com quem teve três filhas, uma delas, Helena, também pintora e freqüentadora da Academia Julian. A vida do pintor resumiu-se durante muito tempo, nas suas idas e vindas a Paris e apesar de considerar-se, segundo escreveu Ruth Tarasantchi em seu livro, herdeiro de Henrique Bernardelli e Pedro Américo, sua formação artística foi, basicamente, européia. Sua maior ambição, segundo a pesquisadora, era pintar como um europeu, o que de fato aconteceu, não significando, entretanto, que não tenha retratado o Brasil em suas telas. A brasilidade de Pereira da Silva teria se manifestado nos motivos escolhidos pelo pintor tais como a série de velhos, as paisagens do litoral paulistano, em algumas naturezas mortas e, sobretudo, nas pinturas históricas.
Entre as normas
e as inovações estéticas
O grande mérito dessa mostra foi dar uma nova visibilidade ao trabalho de Pereira da Silva porque concentrou o que há de mais significativo do seu trabalho e reagrupou diversas obras, pouco vistas até então, de coleções particulares. Encontramos o pintor debruçado nas temáticas históricas, no registro do cotidiano requintado da sociedade paulistana ou nas paisagens bucólicas nitidamente européias. Em outros momentos, flagramos o artista livre dos compromissos das encomendas e dos rigores da academia, na busca espontânea da construção mais solta e expressiva do desenho, com uma liberdade pictórica que faria tremer seus tradicionais mestres da academia francesa.
Academia Julian:
‘primeiro endereço dos artistas’
Para a socióloga Ana Paula Simioni, autora de um estudo detalhado sobre a importância da Academia Julian na formação dos artistas brasileiros do século 19, os alunos tinham que se adequar às regras da instituição, à hierarquização dos gêneros e ao culto dos valores estéticos. Isso era feito não somente com a finalidade de obter conhecimento artístico com os mestres franceses, como também para os jovens artistas poderem usufruir de privilégios e favorecimentos surgidos através da própria academia, como a participação garantida em salões. A Academia Julian, segundo Ana Paula, era o primeiro endereço na França para onde se dirigiam os artistas aspirantes à carreira artística. Representava um espécie de cursinho para o preparo de alunos que ambicionavam patamares mais avançados, como candidatar-se à École des Beaux Arts.
Os métodos e valores adotados pela Julian eram um prolongamento dos padrões vigentes na École des Beaux Arts. Esse fato, entretanto, não implica dizer que os alunos, que freqüentavam salões e ateliês de Paris, e conviviam com outros artistas de formação, origem e escolas diferentes, tenham ficado imunes diante das inovações estéticas que desencadearam os movimentos modernistas do final do século19. Conforme apurou a pesquisadora, através dos arquivos sobre o histórico da Academia Julian, teria havido “uma discreta abertura para as novidades impressionistas” na instituição, nos períodos em que se registrou maior afluência dos artistas brasileiros.
Experiência do olhar
Como bem indica Jorge Coli, a revisão que se faz necessária da produção artística desse período pressupõe uma atitude que vai além da mera reclassificação. Estabelecer novos valores não significa, necessariamente, remover produções de um lado para outro, como se fossem móveis de uma casa. Para o historiador, as classificações seriam muito úteis se fossem apenas para agrupar objetos através de semelhanças. Nesse processo de revisão, o historiador sugere algumas “precauções metodológicas” que transformam o olhar - que vê com profundidade, longe das amarras conceituais -, no principal vetor de conhecimento da obra.
Um olhar que estabelece uma experiência reveladora do sentido autêntico do objeto. Um olhar sensível e inteligente que repensa, reaprende e que reencontra valores temporariamente perdidos.
Leia nesta edição a íntegra
do artigo citado nesta matéria:
Como estudar a artebrasileira do século XIX?
de Jorge Coli


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