“Emoções, trocas discursivas, generosidade e negociação entre indivíduos são as principais questões dessa metodologia criativa que leva a arte a oscilar entre algo que alguns vêem como entretenimento e outros legitimam como reinvenção de uma nova ética de mudança social”. Rosa Martinez

Jamac
“Trocas” sugere convívio
entre as diferenças,
compromisso social da arte e ...
ser gentil
Ao contrário do que ocorre normalmente, o quinto seminário internacional promovido pela 27ª Bienal de São Paulo, ocorrido nesta semana, não foi apresentado pela organizadora responsável, Rosa Martinez, uma vez que a historiadora e crítica de arte, integrante da equipe curatorial desta Bienal, esteve ausente por motivos justificados de saúde.
No entanto, a programação foi mantida, e nos dias 9 e 10, os especialistas convidados falaram para uma platéia de cerca de 300 pessoas, entre artistas, profissionais do campo das artes e demais interessados, sobre questões ligadas ao tema “trocas”, escolhido para a oportunidade.
Esse é o penúltimo seminário internacional promovido pela atual equipe de curadores como parte do propósito de estender o período destinado tradicionalmente às bienais - de dois meses e meio -. Desde janeiro deste ano, a curadoria tem organizado debates entre estudiosos, pesquisadores e público interessado em discutir os conceitos que permeiam a realização da
27ª Bienal, bem como questões de toda ordem ligadas à produção da arte contemporânea.
A psicanalista e escritora Maria Rita Kehl abriu o encontro falando sobre o desafio de viver entre dessemelhantes nas grandes cidades. Para que um projeto de convívio “entre semelhantes-na-diferença tenha sucesso”, afirmou, “é preciso que as cidades sejam construídas em dimensão humana, que as edificações sirvam ao homem e não à concentração e exibição do capital”. Para a psicanalista, há um paradoxo no conceito de desenvolvimento que precisa ser solucionado: “ quanto mais a cidade serve ao dinheiro, mais ameaçadora se torna para seus habitantes e mais violento é o convívio”.
Acreditar no amor e nas gentilezas entre as pessoas, é o caminho apontado pelo artista carioca Ernesto Neto para as polêmicas questões do convívio entre indivíduos e da troca social. Foi um dos poucos artistas a se apresentar durante essa série de seminários e representou o contraponto às visões conceituais dos demais convidados, repletas de prospecções teóricas. Ernesto Neto combinou representação e descontração para falar de política, de arte e da Gentil Carioca, galeria de arte do Rio de Janeiro, que desenvolve, sob a sua curadoria, um projeto com jovens artistas. “Ser gentil nos dias de hoje”, afirma Ernesto Neto. “ É uma coisa complicada e ao mesmo tempo simples. É a gente se esquecer um pouco da gente, ouvir os outros, ser generoso, prestar atenção no que o outro quer falar. Isso às vezes é difícil. Ser gentil demanda tempo, não só real e físico, mas tempo espaço de reciprocidade”.
O francês Nicolas Bourriaud, ex-diretor do Palais de Tokyo, em Paris, discorreu sobre a política de relações ou o que ele denomina “estética relacional”. Citando Marx que estabelece como única diferenciação da natureza humana, o sistema relacional, Nicolas fala do humano como ser inter-humano, que estabelece intercâmbios, trocas entre si. Paulo Herkenhoff, recorreu à mitologia grega recuperando a figura de Sísifo, banido do Olimpo por Zeus, para definir o papel dos artistas, e também de curadores. Para o crítico de arte e curador da 24ª Bienal de São Paulo “o artista seria um Sisifo social e histórico que busca permanentemente novos sentidos para os percursos de sua pedra sob uma inexorável lei da gravidade nas relações entre arte e sociedade”. (leia a história do Sisifo neste site).

Apesar da ausência , a espanhola Rosa Martinez, organizadora responsável do seminário “Trocas”, deixou registrada a sua visão sobre a importância daquele encontro e as suas expectativas para
os debates que se seguiram.
Segue a sua mensagem:

León Ferrari
“Trocas” enfoca a idéia de transferência e intercâmbio como parte do que poderia ser considerado um novo paradigma relacional. Desde comunicação e amor até religião e trabalho, todos os aspectos de nossa vida podem ser vistos como integrantes de uma economia de dar e receber, a despeito da equação normalmente desequilibrada entre esses dois pólos, seja na esfera política, artística, social ou emocional.
Segundo a sociologia marxista, os subordinados do sistema dominante só conseguem vender seu tempo ou seu corpo por um mísero salário, enquanto a biopolítica se volta para a idéia de que há um trabalhador criativo para além de um alienado, e a teoria liberal continua a afirmar que as desigualdades são essenciais à produção de capital. Freud definiu a transferência como sendo tanto a verdadeira força propulsora como o obstáculo para o tratamento psicanalítico, enquanto Bataille defendia as políticas do desperdício como um modo de afastamento da economia libidinal, guiada pela lógica do lucro.
A religião também é um sistema de intercâmbio no qual os benefícios supostamente são alcançados em um outro mundo. E, no campo da arte, a “estética relacional” tornou-se um tipo de ortodoxia na qual processos colaborativos e interativos procuram eliminar a distinção entre o artista enquanto o produtor de objetos e os espectadores enquanto consumidores passivos de mensagens visuais. Em termos de “estética relacional”, a interação de subjetividades é fundamental para a produção de novas formas de sociabilidade. Emoções, trocas discursivas, generosidade e negociação entre indivíduos são as principais questões dessa metodologia criativa que leva a arte a oscilar entre algo que alguns vêem como entretenimento e outros legitimam como reinvenção de uma nova ética de mudança social.
Numa época em que a propaganda tornou-se uma técnica privilegiada de produção de subjetividade, e em que os países ocidentais investem nela o dobro dos recursos que destinam à educação, o confronto entre a instrumentalidade do capitalismo tardio e o poder revolucionário da arte permanece como um debate aberto e, espera-se, uma questão significativa”.
Texto Rosa Martinez- Divulgação
Imagens- Divulgação

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