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120 anos de nascimento de Tarsila do Amaral

 

Tarsila do Amaral na BM&F
Percurso afetivo
120 anos de nascimento


Diario de Viagens (capa), década de 20. Coleção da família.


Tarsilinha do Amaral e
Guilherme Augusto do Amaral


                  Tarsila completa 120 anos de nascimento em 2006. Estamos celebrando uma das mais consagradas artistas e uma das mais marcantes personalidades de nossa história. Seus quadros são símbolos de nossa cultura. Tarsila, muito avançada para sua época, seria hoje a expressão da mulher moderna.

                   Vinda de família tradicional e predominantemente conservadora, encontrava-se, em meados dos anos de 1930, em sua terceira união, dessa vez com um rapaz de 20 anos mais novo. Sem contar os namoros. Convivia, ainda, no meio artístico, o que não era bem visto, e tinha morado sozinha em Paris. Era inteligente, de grande talento, linda, elegante, culta, poliglota, viajada e dotada de forte personalidade, Não era fácil, naquele tempo, reunir tantas qualidades, pois o que se esperava das mulheres era que casassem, cuidassem do marido, dos filhos, da casa e tocassem um pouco de piano. O que faria Tarsila com os outros atributos? Ela tentou. Casou-se com um primo de sua mãe, André Teixeira Pinto, com quem teve a única filha, Dulce. A viagem de núpcias, atravessando a Cordilheira dos Andes de trem e em lombo de burro, já mostrava como Tarsila era diferente. Mas, além da grande diferença cultural entre os dois, ele a traiu. Antigamente, a traição era comum, mas Tarsila não aceitou e quis se separar. Um grande choque para a sociedade. É preciso lembrar do pai de Tarsila, José Estanislau do Amaral, o doutor Juca, rico fazendeiro que foi militante dos movimentos relacionados à Abolição e à República, e que deu à filha o necessário apoio em suas decisões, o suporte financeiro e uma liberdade nada comum naqueles tempos. De sua mãe, dona Lydia, excelente pianista e compositora, herdou a veia artística e a beleza.

                   Encontramos Tarsila na Paris dos anos de 1920, uma festa! Jantares, reuniões, balés, concertos. A vida cultural fervia na Cidade Luz. Lá conheceram Paolo Prado e Olivia Guedes Penteado, grandes personalidades da sociedade paulistana. Foram também apresentados ao escritor franco-suíço , Blaise Cendrars, que os introduziu ao meio cultural da época. Ficaram amigos de Léger, Brancusi, Satie, Cocteau, além de Vollard, Picasso, Stravinsky, Lhote, Gleizes. Léger foi o grande mestre de Tarsila em cujo ateliê ela pintou, em 1923, A Negra, tela emblemática da arte brasileira.
                   (...)
                   Nas telas da fase Pau-Brasil, a qual teve início com a viagem dos modernistas às cidades históricas de Minas Gerais, as cores caipiras tornaram-se marca na obra de Tarsila, associada à técnica cubista aprendida em Paris. Na temática, a paisagem rural remete à infância nas fazendas de seu pai. Nas telas em que são mostradas cidades, a influência de Léger é marcante. A fauna e a flora tiveram um leitura diferente, com formas arredondadas que depois, na fase Antropofágica, terão personalidade ainda mais forte. Dessa fase belíssima, temos O Mamoeiro, que Tarsila deu de presente ao amigo Mário de Andrade; EFCB, feita especialmente para a Conferência de Cendrars em São Paulo, bem como Manacá. De certa forma, a antropofagia tem início nessa fase, na qual Tarsila usava técnica cubista, com temas essencialmente brasileiros, revelando a deglutição da cultura européia e a gênese de uma verdadeira arte nacional.


Retrato de Beatriz, 1926. Coleção da família


                   Mas foi realmente Abaporu a grande tela de Tarsila. Oswald adorou o presente de aniversário, que o deixou impressionado. Chamou o amigo Raul Bopp, que se empolgou com o trabalho.
                   Tarsila valeu-se do dicionário de tupi-guarani de seu pai e batizaram o quadro: o homem que come carne humana, o antropófago. A partir daí, enorme simbologia foi criada em torno desse quadro na cultura brasileira. Dele surgiu o ManifestoAntropófago, a controvertida Revista de Antropofagia, bem como livros dos quais podem ser citados Cobra Norato, de Raul Bopp, e Macunaíma, de Mário de Andrade. O casal Tarsiwald, como Mário costumava chamá-los, não teve filhos, mas Abaporu foi o grande fruto da relação. Tarsila colocou naquela figura a força de sua personalidade, tal como um auto-retrato de seu interior.
                   (...)

                   Com a quebra da bolsa de Nova Iorque em 1929, a realidade mudou. Novos tempos, muito difíceis para uma pessoa que vivia como Tarsila. Depois da viagem à extinta URSS para uma exposição em Moscou, ela pintou Operários,em 1933. Oswald já fazia parte do passado, depois de tê-la traído com Pagu. Ela estava namorando o médico comunista Osório Cézar. Mas o social não durou muito na arte de Tarsila, nem o namoro com Osório. As cores e os semblantes tristes não faziam parte de seu universo pictórico.

                   A obra de Tarsila, que na época também foi objeto de restrições por parte do público, tem hoje lugar especial no cenário artístico brasileiro e no coração do povo, que demorou algum tempo para entender e aceitar as telas da artista. Na primeira exposição de Tarsila no Brasil, Oswald brigou com alguns dos convidados, e os alunos da Escola de Belas-Artes ameaçaram rasgar as telas. A crítica foi favorável. Hoje, no entanto, os quadros de Tarsila estão nos principais museus do País e em grandes coleções.


Oswald de Andrade,1923. Acervo da Pinacoteca Municipal de São Paulo

                   (...)
                   Como escreveu Luís Martins: "Tarsila foi, certamente, uma criatura rara, excepcional, superior, reunindo em si um complexo de qualidades e virtudes que a tornaram, não só em seu meio, como em seu tempo, uma dessas culminâncias quase fenomenais com que a humanidade parece às vezes querer superar-se, aproximando-se da perfeição. Tudo nela era de alta qualidade: o talento, a cultura, a sensibilidade, a bondade, a educação, a beleza."

                   São estes os comentários que nos parecem cabíveis para este evento, pautado pela afetividade. Não podemos, ainda, deixar de louvar a iniciativa da BM&F e agradecer todas as atenções que recebemos de seus dirigentes e funcionários

               

Texto - Catálogo da mostra
Imagens- Divulgação

 

 

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