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120 anos de nascimento de Tarsila do Amaral

 

Paris dos anos 20: brilho, festas, balés e concertos. A  caipirinha paulista,
vestida por Poiret, como a denominou Oswald de Andrade,
participa ativamente da vida cultural francesa ao lado dos artistas modernistas europeus.
Amiga e discípula de Léger, Tarsila do Amaral convive com  
Cocteau, Satie, Brancusi, Lhote e Picasso.
 Na mostra do Centro Cultural BM&F,  obras e objetos pessoais
 promovem a aproximação entre  o público e o mito.

Tarsila do Amaral: Percurso afetivo
120 anos de nascimento



EFCB( Estrada de Ferro Central do Brasil),1924. Acervo MAC/SP

 

Margarida Nepomuceno

                        Com um orçamento aproximado de R$1 milhão, o Espaço Cultural da Bolsa de Mercadorias & Futuros, no centro de São Paulo, inaugurou em 25 de outubro, a mostra Tarsila do Amaral, Percurso Afetivo - 120 anos de nascimento. Em um espaço expositivo totalmente remodelado, dadas as exigências de climatização e segurança  que as obras  requerem, estarão à disposição do público, inclusive nos finais de semana, dezenas de obras e objetos da artista modernista.
                        Lastimando a ausência de Abaporu, emblemática obra  de Tarsila, pertencente à coleção Constantin, cujo seguro , de  R$15 milhões, não pôde ser pago pelo BM&F, o presidente da Instituição, Manoel Felix Cintra  Neto, garantiu que o visitante não se decepcionará pois as obras expostas possuem igual valor artístico e representam as diversas fases da artista. A tela Abapuru foi produzido por Tarsila, em 1928,  e  está cedida em comodato ao Malba – Museu de Arte Latino-americana, de Buenos Aires -, onde se encontra exposta. Para Tarsilinha, sobrinha-neta da artista e uma das curadoras da mostra, as dificuldades em conseguir a concessão temporária das obras , não só de colecionadores particulares, mas de instituições públicas foram muito grandes. Mesmo assim, um número significativo de trabalhos compõem esta mostra.
                        Obras como Auto-retrato II, de 1926; Pont Neuf, de 1923; O Mamoeiro, de 1925;  Paisagem com Touro, de  1925,  e ainda,  A Negra, Estrada de Ferro Central do Brasil e Operários -  as duas primeiras do acervo do MAC , e a última,  do Governo do Estado de São Paulo - estarão presentes.

                        Além dessas grandes obras trazidas de acervos públicos e  de coleções particulares, em grande parte da própria família da artista,  fazem parte da  mostra desenhos e esboços das obras,  posteriormente realizadas, e ainda objetos de uso pessoal que visam fornecer uma noção mais exata da exuberante personalidade de Tarsila: seus pincéis, o binóculo,  blocos de anotações, e um fantástico diário de viagens que contém boa parte de suas recordações dos anos em que residiu em Paris, na década de 20. Tarsila era chamada por Oswald de Andrade, seu segundo casamento, de caipirinha vestida por Poire - famoso estilista francês, amigo dos modernistas europeus -  e uma das pulseiras produzidas por ele, especialmente para Tarsila,  também será exibida. Para Tarsilinha, a exposição dos objetos pessoais da artista aproxima o público, prática  museográfica  exercida com frequência pela curadoria do  Espaço Cultural BM&F nas exposições realizadas naquele local.

                        A equipe curatorial, composta por Antonio Carlos Abdala e pela sobrinha-neta Tarsilinha do Amaral, não pretendeu, com a realização dessa mostra,  promover um novo entendimento das  obras de Tarsila, mas pontuar uma trajetória afetiva da artista, através das obras e objetos pessoais,  para muitos ainda desconhecida.  “Muito já se falou e escreveu sobre  Tarsila do Amaral (...)”, diz Abdala, mas o fascínio que causa o mito da modernista, desperta ainda muita curiosidade.


Retrato de Luis Martins


                        No momento em que se comemora  os 120 anos de nascimento da artista, o maior número possível de trabalhos artísticos e objetos pessoais  foram reunidos  pela equipe e buscou-se  “dar à efeméride,  o contorno de homenagem e de lembrança bem-vinda, emocionalmente desejada (...)”, afirma o curador.  “A exposição , finaliza, é ainda mais relevante, por fazer com  que Tarsila retorne, pela primeira vez, ao centro urbano de sua formação humana em São Paulo – as proximidades do Teatro Municipal, pólo irradiador de toda e agitada vida paulistana daqueles anos intensos”.  Aliás, foi um objeto pessoal de Tarsila, o seu diário de viagens, pertencente ao acervo da família, o motivo que teria inspirado a realização da exposição e a decisão sobre o perfil afetivo dessa mostra.

                        Com raridade, as obras de Tarsila estão ausentes de exposições coletivas que se refiram ao período modernista ou à arte brasileira em geral, mas a última mostra individual da artista não foi no Brasil. Foi em Paris, na Maison de L´Amerique  Latine, em 2005, durante as comemorações do Ano do Brasil na França. A exposição, intitulada Peintre Brésilienne à Paris 1923-1929,  foi co-projetada pelo crítico Paulo Herkenhoff, na época  à frente do Museu Nacional de Belas Artes, e por Brigitte Hedel-Samson, do Musée Nacional Fernand Léger.  Em 2002,  Tarsila do Amaral dividiu com Di Cavalcanti a mostra  Mito e realidade no modernismo brasileiro, realizada no MAM, com curadoria de Maria Alice Milliet.

                        Catálogo Raisonné de Tarsila do Amaral

                        Segundo Tarsilinha, já está sendo organizada a catalogação de todos os trabalhos da artista , através da produção de um catálogo raisonné ( catálogo pensado) que deve estar finalizado em 2007. O trabalho, realizado pela  Base 7 – Projetos,  tem como base a catalogação das obras da artista feitas em 1970 pela sobrinha e crítica de arte Aracy Amaral, que atua como consultora do projeto. Já estão catalogadas cerca de mil obras da artista  e  de acordo com a opinião da sobrinha-neta, sua produção não é tão  extensa, se comparada a de outros brasileiros como Portinari, por exemplo, que possui 5 mil obras catalogadas. Sua justificativa é que a pintora modernista seria extremamente detalhista e mesmo em suas telas de maiores dimensões,  ela utilizava pincéis muito finos. No total, serão catalogados em torno de  1200 trabalhos.
                        Com esta exposição, o Espaço Cultural da BM&F , anteriormente destinado à negociações ,  promove um gran finale a um ano repleto de boas programações culturais , que contou com  três mostras de artistas e personalidades  brasileiros para  uma recepção de 26 mil visitantes. Foram realizadas no correr do ano: Imagens e História do Brasil: Coleção Brasiliana na BM&F;   Santos – Dumont: O  Vôo de um Gênio; e Um Presente para Ciccilo na BM&F.

                        Leia ainda nesta edição :
                        - trechos da apresentação da mostra Tarsila do Amaral na BM&F: Percurso Afetivo, elaborada pela sobrinha neta Tarsilinha e por seu pai  Guilherme Augusto do Amaral.
                        -  Como também o ensaio Tarsila: entre o racional e o surreal, de Aracy Amaral,  sobrinha e crítica de arte. Esse trabalho foi produzido para a exposição La dona, metamorfosi de la modernitat, realizada pela Fundação Mirò, em novembro de 2005.

                          Ambos os textos fazem parte do catálogo da mostra Percurso Afetivo produzido pela BM&F.

 

Serviço
Tarsila do Amaral na BM&F :
Percurso Afetivo – 120 anos de nascimento

Curadores: Tarsila do Amaral  e Antonio Carlos Abdala
De 25 de outubro a 8 de dezembro
Praça Antonio Prado, 48
Telefone: 11- 3119-2404
horário: de segunda a domingo, das 10h00 às 18h00.
Visitas monitoradas das 10h00 às 18h00 agendadas pelo telefone
Acesso para deficientes físicos

Imagens - Divulgação

matéria produzida em 23 de outubro e atualizada em 4 de dezembro de 2006

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