Uma história contada
através dos vasos gregos
Heloisa Dallari

A mostra Deuses Gregos – Coleção do MuseuPergamon de Berlim, que acontece no Museu de Arte Brasileira da FAAP até 26 de novembro, traz a São Paulo obras da arte clássica pertencentes à Fundação Prussiana de Cultura. O acervo de indiscutível valor histórico está dividido por quatro ambientes: a sala do Panteão abriga a reprodução do espaço sagrado dedicado à adoração de divindades, baseando-se na réplica projetada por Karl Friederich Schinkel, célebre arquiteto prussiano do século XIX, para o Altes Museum de Berlim.
Na sala do Teatro estão esculturas de representações cênicas do período helênico, além de uma detalhada maquete do Anfiteatro de Dionísio, situado em Atenas; na do Jardim Romano há uma cenografia que remete ao pátio interno típico das residências romanas, um espaço dedicado à disposição e ao culto de imagens divinas. Para finalizar, no salão Pergamon, tem-se a reconstituição de um altar de sacrifício, proveniente da Ásia Menor, o qual nomeia o museu de Berlim.

Assim, os deuses da Mitologia greco-romana e suas peripécias aparecem fartamente representados através de variados meios de criação: de esculturas de mármore a frisos arquitetônicos, de relevos votivos a estatuetas de bronze, de peças de metal a objetos em cerâmica.
A representatividade da arquitetura e da escultura greco-romanas é irrefutável para a história da arte. Mas, é preciso ressaltar o engenho e a inventividade da cultura clássica manifestados na concepção de objetos para o uso cotidiano, como se observa nos objetos dispostos pelos ambientes da exposição Deuses Gregos. Essas peças feitas em cerâmica (argila cozida) pedem um olhar mais atento, sendo que já na Antiguidade, ultrapassavam o caráter utilitário para o qual se destinavam.
Os vasos gregos, além de terem significância para a economia da Hélade, sendo exportados e comercializados por todo mundo antigo, constituíam um dos principais meios para a divulgação da cultura helênica. Eram bastante admirados por sua indiscutível beleza, pelo acuro técnico em sua decoração, pela similaridade entre a representação de seus desenhos com a da linguagem adotada nas esculturas. Lembre-se que a variedade no modo de representar temas mitológicos e, posteriormente, cotidianos nos objetos cerâmicos reflete a complexidade da civilização grega na Antiguidade.

No início do estudo da cerâmica antiga, no século XVIII, esses objetos receberam o nome genérico de vasos, mas logo se intui que tal diversidade servia para atender a quatro finalidades básicas: recipientes de grande capacidade para a conservação de água, vinho e alimentos desidratados, objetos para refeições festivas, peças de toucador e para uso ritualístico. Na coleção de arte greco-romana exibida no MAB é possível observar algumas configurações desses utensílios e perceber como suas formas estão ligadas à necessidade prática que pretendem suprir: hydrias (jarros de três asas usados para o recolhimento e o transporte de água das fontes), oinokoes (jarros pequenos para servir vinho), kúlix (taças para beber vinho misturado à água), skúphos ou cântaros (tipo de caneca), ânforas (jarros e duas alças para a armazenagem de azeite, vinho e mantimentos secos), além de lécitos (pequenos frascos para a conservação de bálsamo e azeite com finalidade cosmética).

A multiplicidade está presente ainda nos temas decorativos, abrangendo a mitologia, a ritualística, a poética e o teatro, como também nas técnicas de pintura utilizadas para ornar as cerâmicas em períodos distintos. A coleção exposta na FAAP apresenta vasos decorados com a técnica surgida no século VII a.C., através da qual as imagens negras sobrepõem-se ao fundo de cerâmica aparente, e objetos trabalhados com a técnica que nasce no século VI a.C. em Atenas, na qual há inversão no esquema decorativo e as figuras vermelhas são destacadas do fundo pintado em preto.

Na primeira prática as formas humanas e os animais são representados de perfil através de linhas reduzidas, sendo preenchidas com tinta escura e, a seguir, contornadas e marcadas internamente por um buril bastante afiado, para deixar expostos os traços na cor da cerâmica. Trata-se mais de desenho colorido do que de pintura.
O segundo processo exige maior habilidade técnica, pois o fundo das imagens é pintado de preto e os personagens ficam destacados em vermelho com detalhamento elaborado através de traços negros feitos com pincel. Sobre o fundo escuro as representações ganham em volume e movimento: a anatomia é sólida, as figuras vibrantes e as composições eloqüentes. Os personagens aparecem sobrepostos e as imagens ganham espontaneidade e realismo. Esta técnica é adotada por pintores mais habilidosos e interessados na reprodução do mundo concreto, na ilusão de profundidade, na representação de caráter naturalista.

A observação dos utensílios em cerâmica permite, sem dúvida alguma, a constatação da inventividade dos artistas da cultura clássica, que souberam atender com precisão a exigências aparentemente tão conflitantes. De um lado, a busca da decoração harmônica, tendo em consideração o formato abaulado dos vasos, de maneira que volume das figuras acompanhe essa curvatura e haja perfeito equilbrio na composição. De outro, a narração convincente de cena mitológica ou cotidiana, exibindo, através de meios técnicos reduzidos, personagens em ação e movimento, de modo a transportar o observador a um universo fascinante, no qual está a origem da civilização ocidental.
Heloísa Dallari é arquiteta, doutoranda da FAU/Usp e professora de Design da Graduação e Pós-Graduação da Fundação Armando Alvares Penteado.
Serviço
Deuses Gregos
Coleção do Museu Pergamon de Berlim
Data: até 26 de novembro
Local: Museu de Arte Brasileira da FAAP
Endereço: Rua Alagoas, 903 - Higienópolis
Horário: 3a a 6a feira, das 10h00 às 20h00
Sábados, Domingos e Feriados, das 10h00 às 17h00
Informações: (11) 3662-7198
Visitas Educativas: Agendamento (11) 3662-7200
Entrada Gratuita
Imagens© SPK-SMB .Foto: Johannes Laurentius /divulgação

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