As questões sociais
dos indígenas e seringueiros
foram a tônica do Seminário Acre

O último seminário internacional da 27ª Bienal de São Paulo, ‘Acre’, organizado pelo co-curador José Roca, nos dias 10 e 11 de novembro, reuniu intelectuais e especialistas convidados para uma discussão sobre o território do Acre . Foram discutidas as questões do Acre como um espaço como espaço físico determinado, suas representações simbólicas e as produções artísticas realizadas a partir da convivência dos artistas com o espaço e a cultura do Acre.
O indigenista da Fundação Nacional do Índio, José Carlos Meirelles, abriu o encontro na noite de sexta-feira, dia 10, com um relato pessoal sobre como é viver na cabeceira do rio Envira, no Acre. Ele vive na região desde 1988 e tem contato intenso com os diversos povos que lá transitam: madeireiros em atividade ilegal, índios de várias tribos e seringueiros brasileiros e peruanos.
Anti-indigenista
A construção de uma estrada que leve insumos à região e facilite o transporte entre pontos remotos da floresta foi um dos temas centrais da fala de Meirelles. Enquanto a população branca reivindica o direito à infra-estrutura e maior conexão com o resto do país, muitos índios preferem o isolamento. “O grande problema do Estado brasileiro é que ele não consegue admitir um cidadão que ele não consegue controlar. Esses povos têm o direito de ficar isolados e nós temos de respeitar isso”, disse Meirelles. A melhor função de um indigenista é fazer o contrário do que se pensa ser o certo, disse ele, é impedir que os brancos invadam as áreas dos indígenas e os deixem em paz”. Para Meirelles é importante que o governo acabe com os programas pilotos que existem há muitos anos e estabeleça uma política definitiva de proteção àqueles povos.
O antropólogo David Harvey, do programa de pós-graduação da City University de Nova York, traçou um panorama histórico das definições de espaço na filosofia, introduzindo uma discussão sobre como deve ser visto o Acre e outros espaços geográficos críticos no mundo. Lembrou a teoria absoluta do espaço, determinado por coordenadas geográficas, a teoria do espaço relativo de Einstein e as definições relacionais de Leibniz e Spinoza. Sua conferência partiu então para uma recapitulação histórica do surgimento e propagação de governos e projetos econômicos neoliberais pelo mundo todo. Harvey classifica o argumento neoliberal, supostamente em nome da liberdade e do bem-estar dos povos, como uma ferramenta de subjugação mundial, que funciona deixando os pobres mais pobres e os ricos mais ricos.
Problemas na representação indígena
O segundo dia de debates começou com a fala de Francisco Foot Hardman, professor titular na área de Literatura e Outras Produções Culturais, do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Ele tratou as características principais, as nuances e os problemas das representações do Acre e do norte do Brasil em obras literárias, desde o movimento naturalista até obras contemporâneas. Hardman lembrou o livro O Cabeleira, escrito em 1876 por Franklin Távora, como o precursor da uma literatura do norte, livro que retratou a região pela primeira vez na literatura nacional. O professor apontou também a expedição de Euclides da Cunha, autor de Os Sertões, pelo rio Purus, a serviço do Barão de Rio Branco. A viagem foi um passo decisivo para a anexação do Acre ao território brasileiro e rendeu uma das mais marcantes coleções de ensaios sobre o norte do país na história da literatura brasileira.

Tradição X Ciência
A convivência e os embates entre o conhecimento tradicional dos povos da floresta e o conhecimento científico foram temas da conferência de Manuela Carneiro da Cunha, antropóloga membro da Academia Brasileira de Ciências e professora da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos. A antropóloga falou sobre a percepção de conhecimentos tradicionais como um tesouro reservado ao passado. Muitos preservam apenas a lembrança da sabedoria popular como algo útil para a memória, sem aplicação prática, enquanto olham para a ciência como universal, sustentada por protocolos respeitados por todos da comunidade científica, além de se tratar de um projeto em constante evolução.
Manuela Carneiro da Cunha vê na Convenção da Diversidade Biológica, assinada por quase todos os países do mundo, o primeiro passo para o reconhecimento da sabedoria popular e tradicional dos povos da floresta como necessário, útil e digno de preservação. Ela aponta o uso difundido mundialmente das secreções da rã phyllomedusas, algo descoberto pela tribo dos katukinas, no Acre, como exemplo do potencial do conhecimento tradicional dos habitantes da floresta. Manuela participará de uma conferência sobre o Acre no Museu de Arte Moderna de Ljubljana, na Eslovênia, a pedido da artista Marjetica Potrc, que participou da 27ª Bienal como residente em Rio Branco, no Acre.
O historiador, teórico da arte contemporânea e professor da Universidade de Lille 3, na França, Thierry de Duve, usou o Acre como metáfora para uma análise do campo das artes ao longo da história e na contemporaneidade. Partindo dos escritos do filósofo alemão Immanuel Kant, Thierry de Duve explicou que a arte, encarada como território à parte, assim como o Acre, serve para provar que existe a possibilidade de viver junto. A experiência estética é a mais clara manifestação de que pode haver um consenso entre as pessoas. A exclamação de que algo é belo, como escreveu Kant, nada mais é que um pedido de que o interlocutor concorde com a afirmação e passe a fazer parte aquele momento, participe daquela experiência que vai do individual para o coletivo por meio da emoção estética.
“O que Kant diz é que temos um senso estético crítico apenas para reclamar nossa capacidade de compartilhar sentimentos e opiniões, criar uma empatia com o próximo: este é o motivo para a arte existir. A arte tem, na sociedade humana, o dever de atestar nossa capacidade de compartilhar emoções, um passo fundamental para o viver junto”, disse
Thierry de Duve.
A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, fez a conferência que fechou o seminário. Ela ocupa o cargo no ministério desde 2003, após uma vida de militância ao lado de Chico Mendes e outras lideranças, pela proteção do meio ambiente. Marina Silva nasceu no Acre e representou o Estado no Senado duas vezes. Sua fala abordou a necessidade da proteção da floresta não apenas para preservar sua diversidade biológica, mas também para manter vivo um conteúdo simbólico necessário para a vida de seus habitantes.
“A identidade e a existência estão ligadas ao território. A terra e a luta por ela têm essa característica determinista, simbólica, busca os caminhos e os bens naturais que garantem a existência”, disse a ministra.
O seminário ‘Acre’ fechou uma série de seis conferências organizadas ao longo do ano como um dos núcleos de atividades da 27ª Bienal de São Paulo. Os encontros tiveram como objetivo preparar o público da Bienal para a produção artística contemporânea exposta no Pavilhão Ciccillo Matarazzo entre 7 de outubro e 17 de dezembro. O primeiro seminário, intitulado ‘Marcel, 30’, aconteceu nos dias 27 e 28 de janeiro, com organização do curador convidado Jochen Volz. A conferência ‘Arquitetura’, com organização do co-curador Adriano Pedrosa, foi realizado nos dias 1º e 2 de abril. ‘Reconstrução’, organizado pela co-curadora Cristina Freire, aconteceu nos dias 9 e 10 de junho. A curadora-geral, Lisette Lagnado, esteve à frente da conferência ‘Vida Coletiva’, realizada nos dias
4 e 5 de agosto. O seminário ‘Trocas’, que aconteceu nos dias 9 e 10 de outubro, teve a organização da co-curadora Rosa Martínez.
Imagens – Divulgação
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Acre, território de contestação
José Roca*

Alberto Baraya
A ocupação do território denominado Acre teve origem em um empreendimento comercial, envolvendo a ocupação, exploração e, em última instância, apropriação por seringueiros de terras até então pertencentes à Bolívia. Em determinado momento, os seringueiros proclamaram a independência da República do Acre, com a intenção de anexá-la posteriormente ao Brasil. Consta que 14 de julho de 1899, aniversário da Revolução Francesa, foi a data escolhida para a proclamação dessa nova república inspirada em ideais libertários e igualitários. A breve independência do Acre chegou ao fim em poucos anos, com sua anexação ao Brasil.
Desde o início, o Acre tem sido um território de contestação. O desaparecimento da indústria da borracha sinalizou o declínio dos meios tradicionais de subsistência, fazendo com que a região passasse por um período de dificuldades sociais e econômicas. A partir dos anos 1970, conflitos com colonos vindos de outras partes desfavorecidas do País (os quais empreenderam intenso desmatamento para estabelecer uma nova economia baseada no cultivo de produtos agrícolas adventícios, extração de madeira e pecuária) apontavam uma nova contenda que poderia ser descrita como sendo entre aqueles que trabalhavam com ou a partir da natureza e aqueles que trabalhavam contra ela. Além disso, as figuras do seringueiro e de Chico Mendes (líder seringalista na defesa dos recursos naturais – motivo pela qual foi assassinado) servem de base para o atual poder político criar uma narrativa em busca de uma nova construtividade.
No contexto da 27ª Bienal, cujos principais temas incluem a possibilidade de convivência pacífica, em um mesmo território, de sociedade com “ritmos internos” diferentes, o Acre pode ser considerado o lócus de preocupação tais como a busca de forma alternativas de comunidade e a construção de um espaço comum; justiça ambiental; estratégia de sobrevivência; inclusão do não-artista e do forasteiro como exemplos vitais do processo criativo; a questão das populações indígenas no Brasil; fronteiras políticas; isolamentos e a tradição do pensamento; novas formas de coletividade; viagem e deslocamento como formas de conhecimento; a floresta e seus produtos como insumos do fazer artístico; autoditatismo e outros assuntos relacionados.
José Roca é co-curador da 27ª Bienal de São Paulo e foi o coordenador
do Seminário Acre

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