Quando o acesso à Bienal ultrapassa a
linha do espaço físico
Margarida Nepomuceno

Desde o primeiro dia de funcionamento desta Bienal, a curadora geral Lisette Lagnado não se dispunha a bater o recorde de visitação de Bienais, que é de cerca de 1 milhão de visitantes, obtidos na 26ª edição de 2004. Até 14 de novembro, segundo a assessoria de imprensa da Bienal, o número chegava a 350 mil. Faltando pouco mais de três semanas para o encerramento desta edição
(17 de dezembro) é provável que esse número não ultrapasse mesmo a casa de 1 milhão. Entretanto, esta parece não ser a preocupação central da equipe curatorial que vem, desde o inicio do ano, realizando um projeto com várias ações culturais que tem como finalidade aprofundar os laços de comunicabilidade entre as propostas desta Bienal e o público de todas as camadas sociais.
A gratuidade da Bienal é um passo para a democratização do acesso, mas não é suficiente. Na edição de 2004, a Bienal recorde, o acesso também era livre e o que se viu - e ficou comprovado através de pesquisas-, é que houve uma participação maciça das classes A e B (75%), ou seja, de camadas sociais que já freqüentam museus e atividades culturais e que provavelmente lá estariam mesmo se fosse cobrado ingresso. A questão central parece não ser somente o acesso, mas a qualidade do acesso e a ampliação da composição do público freqüentador, particularmente, dos setores culturais periféricos.
Desde o início do ano cerca de 800 professores, das redes pública e privada de ensino, freqüentaram cursos de capacitação para preparar os alunos em sala para a visitação na Bienal; foram criadas cinco frentes de atuação com um grupo de educadores que leva até a periferia de São Paulo (centros educacionais como ONGs e CÉUs) discussões sobre a Bienal e a arte contemporânea. Duzentos monitores foram selecionados após um treinamento de dois meses para dar assistência ao público visitante. Paralelamente a esse programa foram realizados 6 seminários internacionais na sede da Fundação Bienal, com a participação de centenas de artistas, curadores, educadores e demais profissionais ligados às áreas de interesse desse evento cultural. Seminários que discutiram exaustivamente os conceitos que norteiam esta Bienal
Uma das tarefas da equipe de curadores foi desenvolver junto a outros profissionais, discussões temáticas ligadas conceitualmente aos eixos centrais desta Bienal que é o Programa Ambiental de Hélio Oiticica e a difícil reflexão sobre o “Como Viver Junto”, baseada nos ensinamentos de Roland Barthes. Temas como espaços compartilhados, convivência e tolerância, estética relacional, o artista como produtor, humanização das relações sociais e políticas, e vários outros, reuniram comunidades artística e intelectual ligadas às preocupações da Bienal. Essas ações demonstram uma descentralização do comando sempre unilateral característico de outras bienais e uma permeabilidade dos pressupostos desse importante evento cultural aos setores que, mesmo sem poder de decisão, interagem com idéias e pensamentos.
Em relação aos artistas “ selecionar juntos” foi o exercício colocado em prática pela equipe de curadores - Lisette Lagnado ( geral), Cristina Freire, José Roca (colombiano), Rosa Martinez ( espanhola), Adriano Pedrosa e o curador do núcleo Marcel Broodthaers, Jochen Volz -. Ao invés das tradicionais e engessadas representações nacionais, os curadores foram até os artistas, visitando 26 países e segundo Lisette Lagnado, criando uma plataforma experimental em torno de uma rede curatorial ou congresso curatorial, como ela bem explica, “ estimulando a participação , compreendendo, sobretudo, que definir o trabalho criativo transcende as paredes expositivas”.
Enfim, outras inovações foram implementadas seguindo uma tendência mundial das bienais, e que por certo, somadas às soluções próprias da Bienal de São Paulo acrescentam resultados que apontam para a qualidade das visitas superior ao simples aumento numérico de público.
Entretanto, se para alguns, a experiência da Bienal instiga as constantes indagações sobre as possibilidades ou impossibilidades da convivência, principalmente, entre culturas diferentes, ou sobre as relações entre arte e vida, para a maioria ainda se apresenta como uma linguagem hermética, de difícil revelação. As obras não se aglutinam em torno de suportes semelhantes, nem por nacionalidades ou por temas , mas por conceitos.
Os trabalhos de Oiticica não estão presentes na Bienal, mas seu pensamento permeia os critérios de aglutinação das obras presentes. Por um lado, (primeiro piso) estão as obras que valorizam os Projetos Construtivos do artista. Os trabalhos enfocam as práticas de reconstrução, a arte e a arquitetura. Já em Programas para a vida (trabalhos do terceiro piso), onde se encontra o núcleo de Broodthaers, concentram-se os trabalhos que sugerem questionamentos às instituições, às trocas entre artistas, a inclusão de não artistas, um novo processo criativo. Entretanto, esses conceitos podem ser desvelados em qualquer lugar onde o espectador se encontre, seja no térreo, ou no terceiro piso.
Nos diferentes pisos e diante de inúmeras obras há uma sinalização insuficiente, algumas até confusas, e não há guias publicados, a preços acessíveis, que dêem conta dessa necessidade. Nem todos participaram dos seminários preparatórios, nem tampouco do programa educativo de treinamento de professores e monitores, iniciativas irrepreensíveis, porém insuficientes. Em seu ensaio - Um passeio e o espaço que ele abre -, publicado nesta edição, Carmen Aranha vai além do espaço expositivo e das obras circundantes. Ela nos oferece um momento de reflexão sobre o que vemos , e nos revela também que os conceitos podem se transformar em simulacros.
As conclusões não devem antecipar-se aos fatos, mas há questões paradoxais importantes para serem refletidas. Poucos projetos de bienais deram conta de quebrar paradigmas tão antigos e obsoletos como esta edição, caso das representações nacionais, da gestão soberana e unilateral de um só curador ou do mosaico temático que isolava os trabalhos artísticos.
Talvez fosse questão de refletirmos, entre outras coisas, se as Bienais ainda carregam a mesma importância que já tiveram em outros tempos, tempos gloriosos de diretores artísticos como Mario Schemberg e Sergio Milliet ou de curadores como Lourival Gomes Machado ou de Walter Zanini.
Este texto está reproduzido no nosso Blog CP ( Cores Primárias) e está à disposição dos leitores que queiram pensar juntos essas questões.
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