Dia 8 de dezembro encerra-se em São Paulo
a mostra Tarsila do Amaral: Percurso Afetivo
- matéria completa sobre a mostra-


Tarsila do Amaral:
Peintre Brèsilienne à Paris 1923-1929
marca a volta da artista na França após 78 anos de ausência

Pont Neuf, 1923
São raras as mostras coletivas sobre modernismo brasileiro em que não estejam presentes as telas de Tarsila do Amaral. Individuais, entretanto, contam-se nos dedos.
A última realizada foi de dezembro de 2005 a fevereiro de 2006, em Paris, encerrando as comemorações do Ano do Brasil na França, e dela pouco se falou no Brasil.. A exposição, prevista anteriormente para ser no Museu do artista Lèger, em Biot, amigo e mestre dos anos 20, foi realizada na Maison de L´Amerique Latine, no Boulevard Saint German, em Paris, e teve como curadores a diretora do Museu Nacional Fernand Lèger, Brigitte Hedel-Samson e Paulo Herkenhoff, na época à frente do Museu de Nacional de Belas Artes.
Foi a primeira exposição individual da obra da artista em Paris desde 1928, oportunidade em que foi apresentada ao mundo a emblemática tela O Abapuru, há setenta e oito longos anos. Em salas ao lado, a exposição da Maison de L`Amerique apresentou obras de artistas franceses que conviveram com Tarsila como Fernand Lèger, Albert Gleizes, Gorges Valmier.
A mostra reuniu 15 pinturas da artista e 25 desenhos, em sua maioria, produzidos no período em que ela esteve em Paris, de 1923 a 1929, e das fases Pau Brasil e Antropofagia. Foram exibidas as telas Auto-retrato, de 1923, mais conhecida dos franceses de Manteau Rouge, do Museu Nacional de Belas Artes; Auto-retrato e Retrato de Mário de Andrade, ambos produzidos em 1922 em pastel, pertencentes ao IEB/USP; Carnavalem Madureira, de 1924 da Fundação José e Paulina Nemirovsky; O Mamoeiro, de 1925, do IEB/(USP); Os Anjos, 1924, da coleção Gilberto Chateaubriand; Palmeiras, de 1925, coleção particular; ReligiãoBrasileira, de 1927, do acerco do Palácio do Governo de São Paulo; Pont Neuf, de 1923, da coleção Geneviève e Jean Boghici/RJ; São Paulo, de 1924, da Pinacoteca do Estado de São Paulo; O Vendedor de frutas, de 1925, e Urutu, de 1928, ambos da coleção Gilberto Chateaubriand , expostas no MAM/RJ; SolPoente, de 1929, e O Sono, s.d., ambas da coleção Geneviève e Jean Boghici, Rio de Janeiro.
Não poderia deixar de estar presente A Negra, de 1923, obra mais importante de seu período parisiense, pertencente ao MAC/SP e os estudos dessa obra, produzidos na mesma época pela artista: um em nanquim e outro à lápis e aquarela, o primeiro do MAM/RJ e o segundo do IEB/SP. Além desses trabalhos foram exibidos desenhos, estudos, recortes de jornais da época, exemplar da revista Antropofagia, e cartas dos artistas franceses para o casal Tarsila e Oswald.
Leia abaixo, trechos dos textos dos curadores Paulo Herkenhoff
e Brigitte Hedel-Samson publicados no catálogo
Tarsila do Amaral, Peintre Brésilienne a Paris 1923-1929,
de 2005, ainda não editado no Brasil.

As duas e a única Tarsila
Paulo Herkenhoff*
(...)
Bilhete para a modernidade
Em 1920 e 1922, Tarsila estudou em Paris na Academie Julien, com Émile Bernard. Nesse período, ela faz uma dúzia de nus acadêmicos. Tarsila não participou da Semana de Arte Moderna de 1922, a radical iniciativa do pintor carioca Di Cavalcanti. Depois do impacto do evento no país, Tarsila, finalmente, quis ser moderna. Em São Paulo, fora aluna do mencionado pintor acadêmico Pedro Alexandrino. No final de 1922, compra seu duplo bilhete para a modernidade: passa a namorar o poeta Oswald de Andrade e volta à Paris. Mais tarde, Mario de Andrade batizou o casal de “Tarsiwaldo”.
Por seu forte impacto, a viagem de Tarsila e Oswald a Paris é a segunda Missão Artística Francesa na história brasileira – cem anos depois da primeira - , que modernizou o sistema de arte no Brasil frente ao sistema de arte colonial dominado pela arte religiosa barroco-rococó em pleno século XIX. (...) Ao contrário de 1916, a Missão Francesa de 1923 se operou com a ida de brasileiros à França, em busca de novos parâmetros para a arte e uma ousada inserção, de resto não tão bem sucedida, no mercado francês. Ainda estudante, Tarsila já queria sucesso.
O projeto parisiense de um oportunista Oswald tinha o objetivo de vencer na França e duas estratégias: a primeira era consolidar a aliança da burguesia paulistana com o poder oficial, em contatos com o presidente Washington Luis e o embaixador Souza Dantas ( Tarsila: sua obra e seu tempo – nota do autor).
(...)
A segunda estratégia é a negociação simbólica com o meio artístico através de uma moeda valorizada na França: o primitivismo na arte. Assim, em 1923, em Paris, é o ano decisivo para Tarsila com a implantação deste esquema político do casal Tarsiwaldo, cujo processo é claro: viajam a Paris com os milionários do café, Paulo Prado e Olívia Penteado. O mercado de arte, com a compra de obras em Paris será outra moeda para a carreira de Tarsila.
(...).
*Paulo Herkenhoff , na época, diretor do Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro (de 2003 a 2006), foi curador adjunto do MoMA de 1999 a 2002; curador geral da Bienal de São Paulo ( em 1998). É crítico de arte e advogado.
Texto As duas e a única Tarsila foi publicado nas páginas 80-93.
De uma cultura a outra
Brigitte Hedel-Samson*
(...)
Um ensinamento decisivo
Em 1923, Tarsila tem aulas no ateliê de Fernand Lèger. A Academie Moderne ainda não foi criada – somente viria a abrir as portas no ano seguinte-, mas muitos artistas jovens, como os escandinavos Otto Carlsund e Eric Olson, os estudantes da Bauhaus e, regularmente, jovens artistas russos que tinham vindo aprender com Lèger.
Lèger sempre foi curioso e atento aos conselhos do amigo Cendrars. Com ele, interessa-se pelas idéias novas e vê também, no encontro com esse casal, chamados pelos amigos de Tarsiwaldo e com os amigos brasileiros abstados (carta a Léonce Rosemberg, 1923. nota da autora) a oportunidade de um novo mercado para sua pintura e seu marchand.
(...)
Sabemos, pelos testemunhos dos artistas suecos e dos jovens artistas alemães que trabalhavam no ateliê de Lèger, que os alunos participavam das diferentes pesquisas do mestre.
Para Tarsila, o ensinamento de Lèger será determinante. (...) Tarsila també guarda do ensinamento a justaposição dos elementos. As paisagens são construídas por cores chapadas criando profundidade, evitando-se com isso as regras da perspectiva. São construções fechadas que se equilibram pelos contrastes de formas e cores, como na “Estrada de Ferro central do Brasil”, “São Paulo”, “ O Mamoeiro”, “Palmeiras”, “Carnaval em Madureira”.
Quando volta à Europa, em 1926, Tarsila já assimilou as lições de Lèger e apresenta na exposição na galeria Percier, em Paris, obras originais, de cores arrojadas, em que se impõe a vegetação luxuriante. As formas Naïves, jogando com os contrastes, evocam a pintura do Douanier Rousseau.

(...)
Nas paisagens imaginárias estilizadas, a ousadia dos contrastes de cores e a composição circular mergulham o espectador em um mundo feérico que desde então, foi muito utilizado em desenhos animados. Um mundo redondo, colorido, irreal como um convite ao sonho e à fuga.
É o período mais original, mais livre e desconcertante, e também o mais perturbador para o público europeu. Também é a afirmação do primeiro movimento moderno no Brasil, nascido dos vínculos estreitos entre o meio culto brasileiro e os intelectuais europeus que viviam em Paris.
*Brigite Hedel-Samson – curadora do Museu Nacional Fernand Lèger desde 1994. É também curadora do Fundo Nacional de ArteContemporânea , em Paris. Curadora do Museu Cantini, em Marseille e historiadora de arte.
Texto De uma cultura a outra foi publicado nas páginas 94-97.
Imagens divulgação
Matéria completa sobre a exposição Tarsila do Amaral: percurso afetivo, em São Paulo
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