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Agenda de Dezembro

 


Cartazes das
Bienais
dos anos 50

Artistas ligados
 aos cursos de artes gráficas criados pelo
Instituto de Arte
Contemporânea do Masp - o IAC -  criam os primeiros Cartazes das Bienais
Heloísa Dallari

 

História das Bienais

A Vez dos Curadores
Na Parte 5 do ensaio
História das Bienais, a antropóloga Rita de Cássia Alves Oliveira mostra o surgimento da figura poderosa dos curadores das bienais.

 

Acre,
último seminário
da 27ª Biena
l



As questões sociais dos
indígenas e seringueiros
foram a tônica do
Seminário Acre

 

No Centro Universitário
Maria Antonia
prepare-se para ouvir
John Cage

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Ensaio

UM PASSEIO E O ESPAÇO QUE ELE ABRE[1]
Carmen S. G. Aranha *

É  preciso  descrever  o  visível  como  algo  que  se  realiza
através  do homem.
Merleau-Ponty

                                                                                        

                         O olhar se projeta no mundo e a arte é a sua tradução. Mas, na realidade, o olhar é uma possibilidade de atuação do ser cultural e de revisão do espaço do pensamento no qual se movimenta.

                    Observador absoluto versus olhar motivado
                         Lembremos de Merleau-Ponty quando interroga o estatuto do sujeito[2], quando pergunta sobre a organização de seu pensamento e refuta a idéia que ele seja um observador absoluto[3]. Metaforicamente, a interrogação do filósofo nos remete à imagem que o sujeito poderia sobrevoar Nova Iorque, Barcelona, Londres e São Paulo e criar, pela distância, identidades que equacionam certos desenhos urbanos. Assim, lá de cima, o “desenho-modelo”, a “abstração” da cidade poderia ser transportada para todas as cidades, pontuando semelhanças entre São Paulo, Barcelona, Nova York e Londres! Mas há, também, um outro pensamento que desmancha este tecido de razão, puxa seus fios com argumentos sobre não-coincidências.[4] É razão também, agora no entanto encarnada num corpo com história pessoal. A idéia de metafísica também aqui está presente, não como uma construção conceitual estendida às coisas do mundo mas como um situar de conceitos com as experiências que temos deles.[5]

                         “A metafísica é uma interrogação que não comporta respostas que a anulem, mas somente ações resolutas que a transladam sempre para mais longe”.[6]

                         Essa razão projetada numa historicidade num olhar pode oferecer um passeio do ser no mundo.  Esse é um passeio com o olhar motivado por si próprio. E como a criação nasce de um fenômeno desse tipo, tanto do artista quanto daquele que é convidado a participar desse ato, qualquer interpretação que daí surja não é uma racionalidade nem, tampouco, uma irracionalidade. É uma racionalidade alargada[7] que permite a motivação do olhar à procura do “lugar do trabalho criador”.
                         Olhar as múltiplas dimensões longe dos sistemas é o que Merleau-Ponty queria. Queria um pensar que sacudisse as falsas evidências abstratas do observador absoluto.

                         “Merleau-Ponty fala em motivo central de uma filosofia e não em conceito central. Como numa tapeçaria, numa renda, num quadro ou numa fuga, nos quais o motivo puxa, separa, une, enlaça e cruza os fios, traços e sons, configura um desenho ou tema a cuja volta se distribuem os outros fios, traços ou sons, e orienta o trabalho do artesão e do artista, assim também o motivo central de uma filosofia é a constelação de palavras e de idéias numa configuração de sentido”.[8]

                                     Só se vê aquilo que se olha
                         Pensemos nas fotografias de viagens que recortam as experiências ali vividas. Quando reveladas parecem simulacros da memória do instante. Os conceitos também podem virar simulacros, porque podem esconder a motivação que desvela a dimensão da idéia, das cifras que germinaram com a paisagem[9] e deram nascimento às formas criativas do pensamento.

                         “Um corpo humano aí está quando entre vidente e visível, entre tocante e tocado, entre um olho e outro, entre a mão e a mão se produz uma espécie de recruzamento, quando se acende a faísca do sensciente-sensível, quando se inflama o que não cessará de queimar, até que um acidente do corpo desfaça o que nenhum acidente teria bastado para fazer”.[10]

                         Esse “acidente cifrado” pelo processo de vivência de uma experiência com significados essenciais, segundo Merleau-Ponty, é um encontro com o corpo operante e atual[11]. Na realidade, é um lugar desvelado no ser, no qual as motivações vividas naquela experiência destacam um solo sensível tecido com algumas possibilidades de discursos criadores.
                         O corpo operante é um corpo que se movimenta, com seus atos de consciência[12] e com o olhar para o mundo. No momento em que o olhar se move, o corpo se move e nos aproximamos do mundo por essas movimentações. “O movimento faz parte da visão”,[13] “só se vê aquilo que se olha”.[14] E nessa movimentação, o vidente vai se abrindo para o visível[15]. Ao mesmo tempo, o ser se vê vendo, é vidente e visível, olha para todas as coisas e seres e, também, é olhado. Nessa troca, acaba se reconhecendo nas coisas que está vendo, como se pudessem despertar-nos para um eco de visualidades.[16]

                         “O olho vê o mundo, e o que falta ao mundo para ser quadro, e o que falta ao quadro para ser ele próprio, e, na paleta, a cor que o quadro espera; e vê, uma vez feito, o quadro que responde a todas essas faltas, e vê os quadros dos outros, as respostas a outras faltas”. [17]

                         A arte capta a profundidade vivida pelo olhar criador que se deflagrou, de algum modo, na obra. Sou invisível e visível na obra. Aqui os papéis se invertem incessantemente para oferecer a dimensão da criação enquanto reflexo do ser nas coisas.

                         “É próprio do visível ter um forro de invisível”.[18]

O lugar do olhar na arte


                         Merleau-Ponty diz que o sentido das grandes obras sai delas mesmo, vaga pelo mundo e, muitas vezes, quer outras interpretações como seqüências delas mesmas.


s
Velásquez, Las Meninas, 1656-57

s   
Picasso, Las meninas, 1956


      
                         Segundo o filósofo, “a obra não é espetáculo de alguma coisa, a não ser espetáculo de um nada, de uma invisibilidade. Arrebenta a pele das coisas para mostrar como as coisas se fazem”[19]como se ligam aos elementos da arte para situar a localidade onde tudo isso está a um só tempo[20].
                         “Eu teria muita dificuldade de dizer onde está o quadro que olho. Pois não o vejo como se olha uma coisa, não o fixo em seu lugar, meu olhar vagueia como nos nimbos do Ser, vejo segundo ele ou com ele mais do que o vejo”.[21]

La Tour visuelle [The Visual Tower]
Marcel Broodthaers
A Torre Visual, 1966

 

                         Velásquez convoca-nos a fazer parte da representação do quadro através de um jogo de olhares e reflexos. Num momento, nós espectadores somos olhados pelos personagens da obra e, por esse olhar, que nos resgata num ponto invisível fora da tela que somos nós mesmos e o modelo do rei e da rainha, modelo esse refletido num espelho ao  fundo. Outras metáforas de imagens são situadas para sugerir o jogo da representação de formas de invisibilidade ao lugar de visibilidade.[22] Há uma pintura dentro da pintura.
                         Picasso retoma a visualidade clássica e como para o artista a arte é um problema que precisa ser abarcado, problematiza Velásquez com seu objetivo estético. Revê Las meninas e coloca ali linhas duras, planos sólidos, engastamento de formas e uma nova proposta de rítmica compositiva. Continua sendo um jogo de olhares.
                         Não queremos dizer aqui que Broodthaers, artista dessa Bienal Internacional de São Paulo, teve a mesma motivação. Entretanto, a posse de todos os olhares desdobrados e de todos os passeios feitos levou-nos a projetá-los numa de suas obras, não exposta naquele espaço, que recorta e repete uma forma e realiza uma obra dentro da obra, situando o olhar no centro de tudo e sublinhando com isso um simulacro de um jogo de reflexos.

*Carmen S. G. Aranha
 Museu de ArteContemporânea – USP

http://www.macvirtual.usp.br/mac/templates/projetos/percursos/percursos.asp

Notas:

1) Esse artigo contou com os comentários valiosos de Amauri Brito, Alex Rosato
     e J.A.P. Aranha.

2) CHAUÍ, Marilena. Experiência do Pensamento. Ensaiossobre a obra de Merleau-Ponty. 2002. P.2.

3) Idem. P. 7.

4) Idem. P. 4.

5) Idem. P. 5.

6) Idem. Ibidem.

7) Idem. P. 7.

8) Idem. P. 22.

9) MERLEAU-PONTY, M. O Olho e o Espírito. São Paulo: Cosac & Naify, 2004. P. 132.

10) Idem. P. 18.

11) Idem. P. 16.

12) Fantasiados, imaginados, lembrados, raciocinados.

13) O Olho e o Espírito, 2004. Op. Cit. P. 16.

14) Idem, ibidem.

15) Idem, ibidem.

16) Idem. P. 18.

17) Idem. P.19.

18) Idem. P. 22.

19) Idem. Pp. 20-23.

20) Idem, ibidem.

21) Idem, p. 18.

22) FOUCAULT, M. Lãs meninas in As palavras e as coisas. São Paulo: Martins Fontes, 1981. Pp. 19 – 32.

 

 

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