León Ferrari consegue unir como poucos
Poéticas e Políticas
Vera Lucia Simão*
Polêmico, transgressor, político – são adjetivos que se encaixam perfeitamente na poética do artista
argentino León Ferrari.

Retrospectiva de seu trabalho na Pinacoteca e obras
na 27ª Bienal Internacional de São Paulo comprovam a estética de resistência do artista
A exposição “Poéticas e políticas, 1954-2006” traz uma mostra significativa da obra do artista argentino Leon Ferrari dos últimos 50 anos. A mostra tem a curadoria de Andréa Giunta e apresenta um percurso didático de sua trajetória. A gigantesca “Torre de Babel”, de 1964 colocada bem ao centro do espaço expositivo nos convida a excursionar. É uma imensa escultura de arames de diferentes espessuras, amarrados e retorcidos, e que parece ter sido a última escultura de arame dos anos 60 feita pelo artista.
Em torno dela vê-se uma caixa com colagens denominada “Vênus tocada”, de 1964, e em seguida, trabalhos de 1997, nos quais o artista faz montagens de fotografias de Man Ray e de ilustrações de Utamaro, Giotto, Fra Angélico com inscrições, em Braille, de versos, poemas de Borges e dizeres bíblicos. Mais adiante, grandes desenhos sobre papel, como “Quadro Escrito”, de 1964, e “Carta a um general”, de 1963, em que letras e palavras deformadas formam incompreensíveis manuscritos e, por fim, a escultura Gagárin, de 1961.
Outras esculturas em aço inoxidável apresentam-se no espaço central, enquanto, nas paredes, apresentam-se obras contendo impressões com carimbo metálico e impressão letraset, formando desenhos e plantas cartográficas. Estes trabalhos de 1980, são grandes planos que incluem imagens do cotidiano que se repetem. Ferrari os enviava pelo correio aos amigos.

Da década de 90 podemos ver “Justiça- Autocensura”, de 1997 e um dos trabalhos mais polêmicos do artista dessa década: em 1991, no Centro Cultural Recoleta, León Ferrari expõe uma instalação com uma galinha viva dentro de uma gaiola, cujos excrementos caíam sobre uma balança, posicionada abaixo. Houve protestos e intervenção da Sociedade Protetora dos Animais. Então, em 1997, o artista mostra “Justiça” com uma ave morta empanada e acrescenta um novo título: “Autocensura”. A exposição incluía colagens sobre o pecado original e o Juízo Final realizadas com canários, cujos excrementos caíam sobre célebres representações artísticas do Juízo Final. A obra, com a ave, critica a justiça argentina que, nos tempos da ditadura, seqüestrou e fez desaparecer pessoas que se manifestaram contra o regime.
Em destaque vemos “Garrafas”, de 1964, onde prateleiras sustentam garrafas que contém diversos materiais. Em 1990, Ferrari volta a utilizar garrafas, fazendo uma homenagem aos preservativos. Com as garrafas, o artista estabelece uma crítica aos preceitos opressivos da Igreja, que não permite o uso de preservativos para a prevenção de AIDS.
Também expostas encontram-se as cartas que o artista escreveu ao Papa João Paulo II. Mais adiante um pouco, obras em que o artista usa imagens da arte cristã e as mescla com nus ou pinturas orientais de pessoas fazendo sexo. Em 1983, Ferrari retoma os temas religiosos, fazendo colagens nas quais vincula a iconografia católica com a erótica oriental - desenhos do Kama Sutra - explicitando seu protesto contra a repressão, inclusive sexual, exercida pela Igreja. Quando alguém o interpela sobre suas críticas, León Ferrari responde: “A Bíblia é uma antologia de crueldades”.
Poéticas e Políticas apresenta também uma série de montagens de quadros renascentistas com imagens contemporâneas, como helicópteros, bombas, etc., em claro protesto contra os conflitos bélicos, nos quais a Igreja, se não foi conivente, foi omissa, com os governos beligerantes.
“Nós não sabíamos”, de 1995, é uma obra de colagem sobre madeira. Em maio de 1976, o artista recorta notícias de jornais sobre a aparição de cadáveres nas margens do Rio da Prata de corpos baleados em diferentes regiões da cidade de Buenos Aires. Cola-as de forma mais ou menos cronológica até outubro, pouco antes de abandonar o país por razões políticas. Durante seu exílio, no Brasil, mais precisamente em São Paulo, edita quatro exemplares desse material e, em 1984, outros três. Executa a colagem com essas notícias e pequenas imagens de virgens, cristos e santos.
No centro desta sala, encontra-se “A civilização ocidental e cristã” (1966), que explicita a condenação do artista à Guerra do Vietnã e é peça-chave da arte latino-americana contemporânea.
Na 27ª Bienal esculturas de santos perfurados por alfinetes
ou parafusos, amarrados ou cobertos de baratas fazem parte da estética do artista, bem como esculturas de arame e vidro.

Imagens alfinetadas, parafusadas ou amarradas são colocadas à frente de representações de quadros de Giotto, Bosch, Michelangelo, numa crítica explícita ao terror psicológico (e até físico, por exemplo, a Inquisição), imposto pela Igreja durante séculos com o claro objetivo de limitar a liberdade humana.
Sustentadas no espaço, delicadas esculturas de arame levam “a linha ao espaço retorcendo-a e transformando-a em curvas sinuosas, amarradas por arames”, escreve a curadora Andréa Giunta, e convivem bem com outras esculturas, confeccionadas com espuma de poliestireno, que imitam ossos.
Para León Ferrari, a escolha do tema da 27ª Bienal foi acertada, mas afirma que “para que vivamos juntos, todos temos que comer, ter escola, atendimento médico... A forma que hoje temos de viver juntos – ou separados – é que há entre os que comem e os que não comem uma barreira policial” e acrescenta, mas também “para que pudéssemos viver juntos seria preciso eliminar as intolerâncias, as discriminações, pelas quais a responsável é a religião, especialmente o cristianismo. A maior das intolerâncias é justamente
aquela que anuncia que vai castigar, com torturas eternas – no inferno - , os que não acreditam naquilo em que eles acreditam”.
Mais adiante, ele vai afirmar que “essas intolerâncias que estão na Bíblia se estendem no tempo e provocam os campos de concentração de Hitler, a matança de índios na América, a escravidão...”.
Quanto ao papel da arte, León Ferrari explicita que “a cultura ocidental é de uma beleza estética enorme, mas sua história esteve a serviço da intolerância da Igreja. Michelangelo, Giotto e tantos outros ilustraram de forma maravilhosa as torturas e as crueldades”.
Um engenheiro que virou artista
Desde 1991, León Ferrari vive e trabalha em Buenos Aires. Hoje, com 86 anos, é um dos últimos artistas remanescentes da vanguarda argentina e um dos principais artistas latino-americanos.
Ferrari nasceu em Buenos Aires, em 1920 e é formado em engenharia pela Faculdade de Ciências Exatas, Físicas e Naturais da Universidade de Buenos Aires. Só começou sua produção artística aos 35 anos. Autodidata e escritor, iniciou-se como escultor trabalhando com metal, cerâmica, gesso, vidro, madeira e aço inoxidável, para construir leves arquiteturas de formas geométricas que se modificam conforme a posição de quem observa. São “linhas soldadas umas às outras, que se emendam e se cruzam, geralmente em estruturas verticais, mas sempre a partir de uma organização geométrica cuja luminosidade torna difuso o rigor construtivo”, segundo José Augusto Ribeiro. Dentre elas está Gagárin (1961), tributo ao astronauta Yuri Gagárin.
Na década de 60 trabalha com investigações caligráficas e descrição em pinturas e objetos, que são, ao mesmo tempo, desenho e escritura. Para o artista é o início de seu processo de politização. “Fiz, nesta época, as primeiras coisas com um caráter político, que eu chamei de ‘Cartas a um general’. Eram escrituras com letras deformadas, em que eu falava coisas que agora não posso compreender. E não sei se o general as compreendia ou se eu fazia desta forma para que os generais não pudessem compreender o que eu pensava deles”, contou o artista em entrevista a Lisette Lagnado e Aracy Amaral, em debate na Pinacoteca , em 2005.
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