Mobiliário Melancólico
Para o artista gaúcho Luciano Zanette
objetos do cotidiano
como mesas e cadeiras
perdem seus significados originais

Luciano Zanette
A crítica de arte Marlen De Martino, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, traduz, muito provavelmente, o estranhamento e a admiração que muitos sentem diante do trabalho do artista gaúcho Luciano Zanette. São aparentemente peças do mobiliário do nosso cotidiano, desprovidas , entretanto, de suas funções usuais. O estranhamento não é ocasional. Faz parte de um projeto de trabalho de Zanette e a presente mostra , segundo o artista, é um desdobramento de experimentações iniciadas em 1998.
(Imagem)
Na mostra Mobiliário Melancólico, em cartaz na Galeria Sotero Cosme desde 7 de novembro, o artista exibe sete esculturas, nove desenhos e uma fotografia. Para ele, que vem desenvolvendo uma pesquisa no Programa de Artes Visuais no Instituto de Artes da UFRGS, “ a referência a elementos de mobília é clara, mas uma mobília sob o signo da incerteza quanto as suas funções práticas, pois suas características estruturais e funcionais sofreram sobreposições, dobras, subtrações e subjetivações “. A mostra deve ficar em cartaz até 3 de dezembro e está aberta todos os dias da semana, menos aos sábados e domingos.
A historiadora Marlen De Martino, que vem acompanhando de perto o desenvolvimento dos projetos do artista gaúcho,
apresenta os trabalhos
do artista:
MobiliárioMelancólico
Marlen de Martino
Em um alfabeto de associações encontramos corpos que encenam uma tensa coreografia. Profanando o sentido das coisas, as obras falam de uma certa impossibilidade de servir. Um mal estar é produzido frente a esses objetos ordinários aliando em suas características a subversão de não ceder ao uso, de não representar nada mais do que elementos a serem olhados, sem função, sem uso, sem escravidão passiva.
É acalentada uma sede em retirá-los da dormência, objetos muitas vezes produzidos em série, recolocando-os em outras séries, ora como talismãs que encarceram e cristalizam, ora como espelhos que transpassam e refletem, ora como janelas que simulam vertigens.

Luciano Zanette
Com uma filosofia do não, as obras delatam uma lógica desorganizadora, em um espaço que se propõe a ser o testemunho de um desvio. As obras atestam que a vida social, em sua integralidade, está imersa em uma atmosfera estética.
Em um ímpeto de formas, que flertam com um universo propenso a ambivalência, a matéria se torna um desenho de associações. Uma lógica do afeto na qual os objetos de desejo são depositários de relações afetivas. Mecanismos que evidenciam pontos de contato e expõem ângulos cegos. Em territórios onde se avistam espaços de litígio que como em um rasgo afloram distorções em um laboratório de acréscimos com mil dobras. As obras funcionam como aparelhos que engendram operações nervosas, relações sistêmicas que formam uma morfologia de corpos que gritam.

Luciano Zanette
Através de um parentesco de desdobramentos condensam-se experiências e situações precárias. Dispositivos que propõem a fratura e que se inscrevem em uma relação de poder que responde a uma urgência.
Há uma intensa reflexão acerca de uma teoria da pele, quando o toque se coloca como hemorragia, um excesso onde tocar significa atingir.
Expondo sobreposições, justaposições, distensões e afastamentos entre corpos. O toque aqui funciona como uma política de sentidos, quando a conversão ao tátil evoca uma dança de incorporações e confrontos.
Em uma noção de um espaço incorporado encontramos objetos que guardam a presença do mundo, quando as coisas sobrevivem como um testemunho da ginástica dos corpos. Embebidas no espelhamento, as obras sintetizam parábolas.
Ao final, percebemos que as coisas não calam. Nas adjacências encontramos o diagnóstico de um mundo ferido
No deslizamento de um corpo náufrago, atestamos as variações de impossibilidades.
Marlen De Martino
Doutoranda em História, Teoria e Crítica de Arte na UFRGS
Mestre em História Cultural pela UFSC
Serviço
Mobiliário Melancólico
Luciano Zanette
Visitação até 3 dezembro de 2006
Terça a sexta das 9 - 21h
Sábados, domingos e feriados das 12 - 21h
Galeria Sotero Cosme - MACRS
Casa de Cultura Mario Quintana
Rua dos Andradas, 736, 6º andar - Porto Alegre – RS
Tel. (51) 3221-5900 (51) 3227-9698
Outro endereço com obras do artista Luciano Zanette
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