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Agenda de Dezembro

 


Cartazes das
Bienais
dos anos 50

Artistas ligados
 aos cursos de artes gráficas criados pelo
Instituto de Arte
Contemporânea do Masp - o IAC -  criam os primeiros Cartazes das Bienais
Heloísa Dallari

 

História das Bienais

A Vez dos Curadores
Na Parte 5 do ensaio
História das Bienais, a antropóloga Rita de Cássia Alves Oliveira mostra o surgimento da figura poderosa dos curadores das bienais.

 

Acre,
último seminário
da 27ª Biena
l



As questões sociais dos
indígenas e seringueiros
foram a tônica do
Seminário Acre

 

No Centro Universitário
Maria Antonia
prepare-se para ouvir
John Cage

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crônicas de Tarsila do Amaral

(continuação)

                  A memória, que nas crônicas de Tarsila tem endereço certo, Paris, se manifesta através de pessoas, expoentes da vida cultural da capital dos anos 20. Chamadas à baila ora para recompor um ambiente retratado pela artista, ora para dar corpo a um texto, as personalidades desfilam diante do leitor. Afinal, é freqüentando as reuniões da alta vanguarda parisiense que Tarsila entra em contato com “a gente mais interessante no mundo da literatura, das ciências e das artes”[9]. As apresentações seguem-se nos textos, como se a artista, ao invés de simplesmente contar como conheceu as pessoas, fosse a própria anfitriã a apresentar ao leitor os ilustres personagens que ali se encontravam:

                  “Nessa atmosfera de alegria e inteligência estavam Jean Börlin, o bailarino querido, na serenidade da sua beleza apolínea; Darius Milhaud, o compositor do ‘grupo dos seis’ que tão bem tirou partido do folclore brasileiro; Fernand Léger, o pintor da harmonia contrastada de cores intensas; Blaise Cendrars, o poeta companheiro de Guillaume Apollinaire, o alvissareiro da poesia moderna, o único que ali estava de paletó, símbolo do seu profundo desprezo às convenções sociais (dessa vez não levara consigo a cachorrinha Volga, branca e peluda, apesar de que por esse tempo dizia ele que só freqüentava os lugares onde Volga pudesse entrar); Léonce Rosenberg, o esteta que deu ao movimento cubista seu apoio incondicional, estava ao meu lado e as apresentações sucediam-se: André de Fouquières. Será possível?... É esse o árbitro da elegância? – pensei. Fisicamente era um velhote apenas simpático e se a elegância é realmente a arte de se vestir sem se fazer notar, André de Fouquières era de fato um elegante, passaria mesmo completamente despercebido”[10].

Tarsila do Amaral em sua primeira exposição individual na Galerie Percier.

coleção Mario de Andrade, arquivo IEB/SP


                          Mas Paris não era só composta pela alta sociedade e pelos artistas de vanguarda. A enorme massa de desconhecidos que buscavam um lugar ao sol também é lembrada por Tarsila:
                  “Paris era a capital do mundo para onde convergiam todos os artistas com as suas aspirações, todos os intelectuais ávidos de cousas novas, toda a gente de dinheiro que queria divertir-se, toda a gente pobre na esperança de enriquecer. Havia ambiente para todas as mentalidades que se agrupavam em ondas humanas sem se misturar”.[11]

                  A referência a tanta gente – conhecida ou desconhecida – mostra que Tarsila estava muito bem acompanhada na capital francesa. Por intermédio do poeta franco-suíço Blaise Cendrars, que iniciou a cadeia de apresentações, ela se encontrava no meio do burburinho, no olho do furacão revolucionário das artes. Inebriada pela atmosfera única que conheceu em Paris, mesmo depois de cerca de dez anos, o tom maravilhado ainda predomina nas descrições de encontros e ambientes, contaminando tudo o que está por perto, atingindo até mesmo simples cenas de rua, transformando Paris num terreal paraíso.

                  Para além das grandes personalidades artísticas - a quem Tarsila dedicou crônicas ou que são apenas lembradas sem muito vagar - e das descrições singelas de lampejos da vida cotidiana parisiense, ressaltamos que o que mais admira a artista é a liberdade e a independência que a cidade lhe inspirava. Na São Paulo das décadas de dez e vinte, onde prevalecia a mentalidade patriarcal transposta da fazenda, onde as ousadias modernas não eram permitidas e tudo era policiado pelo espírito provinciano, “Tarsila já se distanciava do modelo típico da moça paulista, retraída e caipira nos tratos, que não participava das conversações, servia o cafezinho e retirava-se da sala”[12]. Talvez a artista se sentisse sufocada pelo ambiente cerceador da capital paulista e, experimentando os novos ares de Paris, encontrasse finalmente a liberdade a que tanto aspirara:
                  “(...) O parisiense vivia como podia e como entendia sem se preocupar com o que o vizinho pudesse pensar dele. O estrangeiro encontrava ali a sua liberdade. Que prazer vagar pelas ruas sem descobrir uma cara conhecida! (...)”[13] .

                Celebrando em suas memórias de Paris a “atmosfera de vida independente e livre”, a artista acaba por reservar um certo espaço para tratar somente da capital francesa. E, em meio a tantas personalidades famosas, a própria cidade de Paris, por vezes, adquire contornos de personagem, desempenhando seu papel de juíza suprema nas questões da vanguarda intelectual. Segundo Tarsila,
                  “Paris é um ímã, atrai artistas do mundo inteiro, personifica a Arte com todas as suas tendências, modas, nervosismos e, quer queiram, quer não, aceita, recusa, seleciona, impõe, dita leis”.[14]
                  A cidade, portanto, é um personagem que incorpora os diversos estados das artes, com suas efemeridades e sua voluptuosidade, e tem o poder de decisão sobre que tendência artística deva ser cultuada a cada nova estação. Assim foi com todas as correntes estéticas importantes do final do século XIX e início do XX. Invariavelmente, todas as que vingaram tiveram o aval de Paris, que as hospedou em seus ateliês e galerias de Montmartre e Montparnasse e exportou-as para o resto do mundo.

                  Para Tarsila, “Aquela cidade cinzenta, aparentemente severa e envelhecida, tinha a alma jovem, alegre, irrequieta, briguenta, exuberante”[15] . Tal caracterização paradoxal, em que o moderno e o antigo convivem harmoniosamente, aparece tanto na descrição da atmosfera das reuniões de artistas e intelectuais quanto nas descrições de personagens do mundo parisiense:
                  “Móveis velhíssimos, carregados de tempo, saídos do carinho de antiquários obstinados, ali estavam paradoxalmente harmonizados com os quadros ultramodernos de Léger e Picasso (...).[16]
                  “(...) Erik Satie, o mais jovem entre a turma de compositores de dezoito anos, que em 1923 agitava Paris sob a sua direção. Satie aos sessenta e três anos
[17] se achava na plenitude do seu espírito, da sua imaginação rica e sempre nova. Compunha peças satíricas que faziam a gente cair fatalmente na gargalhada. (...)

                  Não digo que Luiz Soares tenha sessenta anos como Satie, mas, quando os tiver, será também o mais jovem entre os jovens”[18] .
                  Assim como nas descrições do apartamento de Rolf de Maré e do compositor Erik Satie, com quem Tarsila compara o pintor pernambucano Luiz Soares, na própria caracterização da cidade podemos observar o paradoxo criado pela autora entre a aparência - velha, ligada ao passado - e a essência - jovem, inovadora. A capital e o compositor possuem em si tais características, o que mostra a forte identificação entre Paris e seus personagens. Cidade e artistas confundem-se na efervescência intelectual dos anos vinte.


A Caipirinha, de 1923

                  Tarsila, em suas crônicas, regressa à tal cidade das maravilhas de sua imaginação infantil, descoberta quando ela então compreendeu que “(...) a sedução de Paris estava toda na sua vida intensa, rica de emoções e prazeres estéticos”[19] . E ao revisitar lugares, amigos e situações, ela experimenta novamente o gosto inebriante da folle époque parisiense, marco fundamental tanto na carreira artística quanto na personalidade livre e alegre da pintora que se descobriu brasileira em Paris, como ela própria afirma em carta à família, em 1923:

                  “Sinto-me cada vez mais brasileira: quero ser a pintora da minha terra. Como agradeço por ter passado na fazenda a minha infância toda. As reminiscências desse tempo vão se tornando preciosas para mim. Quero, na arte, ser a caipirinha de São Bernardo, brincando com bonecas de mato, como no último quadro que estou pintando”[20] .

 

 

1- *Laura Brandini é mestre em Língua e Literatura Francesas pelo Departamento de Letras Modernas da FFLCH - USP, atualmente desenvolve pesquisa no programa de Literatura e Estética da Faculdade de Letras da Universidade de Genebra.

2- “Recordações de Paris.” Habitat – Revista das Artes no Brasil. São Paulo, 1952, nº 6.

3- “Recordações de Paris”, op. cit.

4- Cf. Aracy Amaral, Tarsila, sua obra e seu tempo. São Paulo: Perspectiva/ Editora da Universidade de São Paulo, 1975, vol.1,  pp. 31-41.

5- “Recordações de Paris”, op. cit.

6-“Marie Laurencin”. Diário de S. Paulo, 02 de junho de 1936.

7- “Delaunay e a Torre Eiffel”. Diário de S. Paulo, 26 de maio de 1936.

  8- “Lhote roubou meu leque”. In “Marie Laurencin”, op. cit.

9-“Itinerário de Paris”. Diário de S. Paulo, 21 de março de 1940.

10-“Marie Laurencin”, op. cit.

11-“Paris”. Diário de S. Paulo, 30 de maio de 1943.

12- Cf. Aracy Amaral, op. cit., pp. 25-26.

13- “Paris”, op. cit.

14- “Delaunay e a Torre Eiffel”, op. cit.

15- “Paris”, op. cit.

16- “Marie Laurencin”, op. cit.

17- Precisamos que Erik Satie nasceu em 1866 e que, portanto, em 1923 estava com 57 anos.

18- “Luiz Soares”. Diário de S. Paulo, 03 de janeiro de 1939.

19- “Paris”, op. cit.

20- Cf. Aracy Amaral, op. cit. p. 84.

 

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