O tema O corpo e suas metáforas: materialidade e gestualidade nos museus, reuniu dois importantes depoimentos na 6ª Semana dos Museus, realizada na USP. Maria Helena Machado, professora associada da FFLECH apresentou seus estudos sobre a coleção de fotografias da população negra do Brasil do século 19 pertencente ao Peabody Museum de Harvard, e Toshio Watanabe, professor e presidente do Japan Art History Fórum, discorreu sobre o longo processo de reconhecimento da arte japonesa pelos museus do Ocidente.
A pesquisadora apresentou uma série de imagens pertencentes a essa coleção à luz de explicações sobre os discursos racialistas predominantes na época da produção desse material. Discursos que fundamentaram essa experiência, de caráter aparentemente, científico. A coleção foi resultado da Expedição Thayer, realizada no Brasil entre 1865 e 1866, liderada pelo suíço Louis Agassiz e consistia no registro em série de tipos raciais brasileiros do Rio de Janeiro e pontos da Amazônia.
Louis Agassiz percorreu nesse período diversas regiões do Brasil e com o auxílio dos fotógrafos Augusto Stahl e Walter Hunnwell, produziu uma série de fotografias da população africana e de seus descendentes: “tipos raciais puros” e “mistos e híbridos amazônicos” foram as denominações das séries produzidas sob a responsabilidade do cientista.

Tipo racial amazônico
Peabody Museum - Harvard University
Os estudos de Maria Helena sobre esta coleção composta de portraits e fotos racialistas e somatológicas, revelam a mentalidade científica predominante da época. Mentalidade que considerava inaceitável e até repugnante a miscigenação de raças. Para a pesquisadora, esse foi o discurso que prevaleceu nos EUA e na maior parte dos países da Europa no século 19 que reforçou as teorias segregacionistas difundidas pelo mundo. Louis Agassiz acreditava, segundo Maria Helena Machado, que os portugueses eram degradados, antes mesmo da colonização do Brasil, e pior teriam ficado ao se miscigenarem com índios e negros.
A Coleção Fotográfica encontra-se no Peabody Museum da Universidade de Harvard, nos EUA, e apesar de tombada é praticamente desconhecida do público, segundo a pesquisadora.
Por considerá-la de grande relevância para o estudo da população brasileira da segunda metade do século 19, Maria Helena empreendeu seus estudos, muitas vezes dificultados pelo próprio Peabody Museum que se opôs, inicialmente, à circulação das fotografias. O argumento apresentado era de que o museu não possuía autorização dos fotografados. Claro... dos negros e negras de 1865!
De posse desse material Maria Helena encontra também no Brasil dificuldades para dar um tratamento técnico adequado à coleção, como a digitalização do material .

Maria Helena P. T. Machado, Vania Carvalho e Toshio Watanabe
As fotografias da coleção não são artísticas, embora algumas revelem um equilíbrio na composição estética. São em sua maioria denominadas de somatológicas, pretensamente reveladoras de “características raciais inferiores”. Trabalhar essa coleção no território cultural no qual foi produzida significa mexer nos cantos sombrios da história das mentalidades. Daí, talvez, as dificuldades encontradas pela pesquisadora desde o início, em Harvard, e posteriormente, no Brasil.
Helouise Costa, pesquisadora da história da fotografia brasileira e coordenadora da 6ª Semana dos Museus,afirmou que o trabalho de Maria Helena suscita novos questionamentos para o estudo das fotografias dos viajantes estrangeiros que aportaram no Brasil. Questões que remetem à averiguação dos reais objetivos que determinaram as ações desses viajantes.
2ª imagem -
Tipo racial amazônico
Peabody Museum - Harvard University
reproduzido do livro: Machado, MHPT, Brazil trough the eyes of William James. Cambridge: HUP, 2006.
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