“O impulso da arte moderna foi esse desejo de destruir a beleza”, afirmou Barnett Newman. Para ele, “o sublime é agora!”. Esta frase não envelheceu – ao contrário, ganhou força com os focos diversos das discussões atuais sobre arte no Brasil, com suas abordagens cada vez mais múltiplas. Entretanto, em contraste com essa produção, que possui diversos exemplos bem estruturados, temos uma imprecisa situação de mercado – excluindo alguns poucos exemplos bem-sucedidos nos centros urbanos maiores. Na ausência ou atuação parca de outras instâncias de apoio, a participação em salões de arte continua sendo uma alternativa para que vários artistas brasileiros possam permanecer produzindo. Em face dessa situação, muitos salões de arte não hesitam em proteger seus artistas, atrelando a arte às amarras do regionalismo. Intitulam-se nacionais, mas submetem-se a uma equação pouco condizente com tal título.

Participantes das oficinas
Nas obras selecionadas no 7º Salão do Mar, é evidente a complexidade das relações que permeiam a arte contemporânea. Imersas, nesta época tão pouco crítica, em uma individualidade precária e desagregada, as obras são elementos poéticos que propõem diálogos cada vez mais polifônicos, que incitam o espectador a investigar referências e a desconfiar do seu próprio juízo crítico. Extraindo subsídios da história (da arte, da arquitetura, da literatura), de outras disciplinas – especialmente das ciências humanas –, da tecnologia, dos vestígios dos produtos culturais, dos resíduos do cotidiano, de artefatos industriais ou tendo o corpo como referencial – como medida, como indício, seja por intermédio de suas secreções, seja pela possibilidade de interação com outros –, chamam a atenção para pormenores que fogem às lentes do senso comum.

Crianças e adultos participaram das oficinas de Cadernos da Memória
O Salão do Mar é realizado desde 1999, pela Secretaria de Cultura da Prefeitura Municipal de Vitória, por intermédio da Casa Porto das Artes Plásticas, sendo a única mostra de artes plásticas competitiva do Espírito Santo, daí a importância do evento para o Estado. Talvez por isso, até sua última edição ele era destinado apenas aos artistas residentes na área de atuação da Capitania dos Portos do Espírito Santo; agora, passou a ser nacional. Entretanto, desde o processo de seleção até o de premiação, os membros das Comissões desconsideraram qualquer traço de regionalismo nas escolhas realizadas. Ora, se o que se pretende é uma competição realmente justa, não é possível trabalhar com as amarras do paternalismo, ainda que a recepção crítica possa suscitar questionamentos. Para ampliar o foco da discussão da produção local, não podemos recair no protecionismo, algo que normalmente rechaçamos quando dele somos excluídos. A não utilização de critérios geográficos, tanto na seleção quanto na premiação, constitui um certificado simbólico da necessidade de romper de forma lúcida com estas sujeições e introduzir novas diretrizes de atuação, mais efetivas que projetivas.
As alterações no regulamento foram fundamentais para que recebêssemos um número quase quatro vezes maior de inscrições em comparação com as seleções anteriores. Artistas de 19 Estados brasileiros concorreram este ano. Dos 27 selecionados, um quarto são capixabas. Este número atesta o excelente momento criativo local e demonstra o quanto a benevolência é dispensável.

Participação nas oficinas
Ao descartar toda e qualquer estratégia dissimulada de oficializar uma produção como legítima, apenas para ganhar os aplausos do grupo em que estamos inseridos, deixamos de consolar com piedosas ilusões nossos pares. Também não nos poupamos de um embate real, com o qual poderemos evitar a estigmatização dessa produção e seu conseqüente confinamento a um mercado local com sua concorrência mais restrita.
A própria história da arte recente é testemunha de que um dos seus momentos mais fecundos foi o período das vanguardas históricas, quando, principalmente em Paris, artistas das mais diversas nacionalidades viviam e tinham como questão principal a produção artística. Ou, para retornar ao Brasil, podemos pensar no exemplo das bienais, que desde os anos de 1950 abrem um leque de possibilidades pelo livre intercâmbio de idéias artísticas. É esta a nossa pretensão nesse novo caminho que foi aberto com a nacionalização do Salão do Mar: criar um percurso que não pretende ser o das respostas, mas o dos questionamentos.
Imagens fornecidas pela Casa Porto que registram as atividades de arte-educação realizadas durante o 7º Salão do Mar, em 2006.
* Diretora e curadora da Casa Porto das Artes Plásticas de Vitória ( ES). |